Livros DIGITAIS para Confraternização

Prezados Leitores

Fim de ano é tempo de confraternizar! Presenteie com Livros Digitais aquelas pessoas que participaram de seus momentos especiais.
Temos livros para gentios em geral, para Bnei Noach, para judeus, e para os em processo de conversão ao judaísmo.
Presentear alguém também é estar fazendo uma tsedacá!

 

E aproveite a ocasião para conduzir outros ao Conhecimento Verdadeiro de D’US…

… pois há pessoas dos povos do mundo que ficam mais propícias nesta época do ano para lerem sobre D’US. Então não perca a oportunidade de presenteá-las com nossas exclusividades…

Um Livro Sobre D’US (do Rabi Aryeh Kaplan),
ou para crianças:
 Fala-me de D’US (do Rabi Jacob Garzon)

Curso Bnei Noach parte 30 – ESPECIAL: LIVRARIA virtual Projeto Noaismo Info

 

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25a Parte do Curso Bnei Noach

B”H

 

Parte 25 do Mini Curso Virtual Gratuito de Introdução ao Tema de Bnei Noach

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O Curso Bnei Noach do Projeto Noaismo Info é composto de um conjunto de páginas correlacionadas. Cada nova página é uma nova lição. Porém, como página não possui Tag, quando publicamos uma nova página (uma lição nova do Curso) publicamos também um post que direciona para a página em questão, de modo que cada post possui as Tags (assuntos) daquela página.

A existência de um povo que prova a existência de D’us

Você já parou para pensar no como e no por que o povo judeu existe até hoje (existe há 4.000 anos)?

 

É a existência de um povo que prova a existência de D’us.

 

Veja em

https://a-fe-original–noaismo.info/2016/04/22/o-povo-de-dus/

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O Povo de D’us

Mensagem_Papa_Pessach

Carta do Papa Francisco de 25/3/2013

O Povo de D’us

 

Quem é o Povo de D’us?

 

Todas as religiões que dizem acreditar em D’us também são unânimes em dizer que D’us tem um Povo. Quem é o Povo de D’us?

Os católicos dirão que são eles. Os ortodoxos dirão que são eles. Os evangélicos dirão que são eles. Os messiânicos dirão que são eles. Os espíritas dirão que são eles. Os muhammadistas dirão que são eles. Na verdade, todos os povos são de D’us (não as suas religiões — as religiões das nações do mundo). Mas D’us também criou e escolheu um Povo para dar testemunho DELE (i.e., de SUA existência) e ensinar sobre “ELE” a todos os outros povos. Ninguém menos que o Papa Francisco responde a esta pergunta. Ele reconheceu e admitiu duas vezes por ocasião da Festa de Pêssach*:

 

Em 25 de março de 2013, o Papa Francisco escreveu para o líder da comunidade judaica de Roma, Rabi Riccardo Di Segni, dizendo:

“O Onipotente, que libertou o Seu povo da escravidão do Egito para guiá-lo até à Terra Santa, continue a libertar-vos de todo o mal e vos acompanhe com a sua bênção.”

 

E em 21 de abril de 2016, o Papa Francisco novamente escreveu para o rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, dizendo semelhantemente à primeira vez:

“que o Onipotente libertou o Seu amado povo da escravidão e o conduziu à Terra prometida.”

 

* Infelizmente desde então, o papa Francisco não tem mais admitido que o povo judeu é o Povo de D’us, o povo que ELE libertou da escravidão no Egito.

 

Em toda a História da Humanidade, somente um povo foi libertado por D’us da escravidão do Egito e conduzido por “ELE” à Israel, celebrando esses acontecimentos todos os anos, por mais de 3300 anos, na Festa de Pêssach:
O POVO JUDEU.

Assim, o Povo Judeu, SIM, são as Verdadeiras Testemunhas de Y-H-V-H (HaVaYaH [D’us]) (veja o Profeta Judeu Isaías [Ieshaiáhu] 42:1,5,6; 43:1,5,6,10,11,12,15,16,17,18,19,20,21; 44:1,2,6,7,8,21).

 

(Em 2019, Pêssach é de 19 de abril após o pôr do sol a 27 de abril antes do pôr do sol.)

 

Foi profetizado que toda a Humanidade reconhecerá e admitirá que D’us existe e que D’us tem um povo e que este povo é o Povo Judeu (veja o Profeta Judeu Zacarias [Zechariá] 8:23*). Essa profecia está se cumprindo em nossos dias, bem diante de nossos olhos.

 

* Veja várias traduções desse versículo:
http://abibliajudaicanoseucontextojudaico.blogspot.com.br/2010/10/deus-esta-contigo-com-quem.html?m=1

 

Aqueles que agora estão abandonando suas religiões para servir O D’us de Israel em parceria com o SEU Povo, o Povo Judeu, são os chamados Bnei Noach (expressão hebraica que significa Filhos de Noá (Noé)) ou, os Noaítas.

 

Fontes:

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/vaticano/vaticano-papa-sauda-comunidade-hebraica-pela-celebracao-da-pascoa/

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/vaticano/vaticano-papa-sauda-judeus-na-celebracao-da-pascoa/

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A Prova da Existência de D’us, Parte 1

 

D’us existe?

Se D’us existe, qual é a prova de Sua Existência?

Por que D’us não SE “mostra” (SE revela) à Humanidade?

E se D’us existe, O QUE é D’us?

 

SIM, D’us existe. E a prova da Existência de D’us é a existência de Seu Povo. A prova da Existência de D’us é o FATO de que “ELE” MESMO criou e escolheu um povo para SI. E SIM, D’us já SE “mostrou” à Humanidade, só não sabe quem não quer.

Saiba o que significa a Grande Festa Judaica de PÊSSACH e quais são as respostas às perguntas acima em:

 

· PÊSSACH – A FESTA DA LIBERDADE

 

· Três níveis de percepção do Divino

 

· As Dez Pragas do Egito

 

· O Milagre da Abertura do Mar

 

· MONTE SINAI: O ENCONTRO ENTRE D’US E ISRAEL

 

· A Unicidade de D’us

 

Confira também:

Seis textos especialmente selecionados para as questões

 

E para aprender sobre A Fé e O Caminho Espiritual Originais da humanidade, aqueles dados pelo PRÓPRIO D’us a todos os não-judeus, veja:

Palavras do Rebe a toda a humanidade (a todos os não-judeus do mundo)

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A Prova da Existência de D’us, Parte 2

 

A Prova da Existência de D’us, Parte 2

 

PÊSSACH – A FESTA DA LIBERDADE

O Êxodo do Egito, celebrado na festa de Pêssach, permeia toda a lei e a tradição judaicas. A Hagadá, texto lido durante o Sêder, ensina que em cada geração é dever de todo judeu sentir-se como se ele próprio tivesse saído do Egito.


 

Efetivamente, a Torá nos (a nós judeus) ordena “…para que todos os dias da tua vida te recordes do dia da tua saída da terra do Egito” (Deuteronômio 16:3). Instrui-nos, também, que se acaso nossos filhos nos perguntarem por que seguimos esses mandamentos, deveremos responder: “…pelo que HaVaYaH me fez quando saí do Egito” (Êxodo 13:8).

A lei judaica e seus mandamentos estão vinculados ao Êxodo. O primeiro dos Dez Mandamentos é a afirmação Divina de que ELE é HaVaYaH, nosso D’us, que nos tirou da terra do Egito, da casa da escravidão (Êxodo 20:2). Ao invés de SE declarar como O CRIADOR de todo o universo, D’us apresenta-SE como O responsável por ter libertado o povo judeu da servidão egípcia.

O Talmud menciona que o povo judeu necessita, sempre, de um sinal de seu vínculo com D’us, representado através da colocação dos tefilín e da observância do Shabát (Eruvin 96a). A Torá menciona quatro vezes o mandamento do uso dos tefilín, duas das quais relacionando-o com o Êxodo: “E será para ti como um sinal sobre tua mão e como lembrança entre teus olhos, para que esteja a Lei de HaVaYaH em tua boca; pois com mão forte te tirou HaVaYaH do Egito” (Êxodo 13:9). E, mais adiante: “E será como um sinal sobre tua mão e por meio de filactérios (tefilín) entre teus olhos, porque com mão forte nos tirou HaVaYaH do Egito” (Êxodo 13:16).

O mandamento de guardar o Shabát também é associado com o Êxodo: “Guardarás o dia do Shabát para santificá-lo, como te ordenou  HaVaYaH, teu D’us…E de que servo foste na terra do Egito, e que de lá te tirou HaVaYaH, teu D’us, com mão forte e braço estendido; portanto te ordenou HaVaYaH guardar o dia de Shabát” (Deuteronômio 5:12-15).

É evidente que o Êxodo foi de grande importância histórica para o povo judeu. Mas por que estaria relacionado com os mandamentos religiosos? E por que, milhares de anos mais tarde, somos obrigados a lembrá-lo e a transmiti-lo a nossos filhos?

Lições do Êxodo

Na Torá vemos que D’us apresenta-se sob vários Nomes. Mas há dois destes que são, quase sempre, utilizados: um é Elohím, enquanto o outro é composto de quatro letras hebraicas: yud, hei, vav, hei. Este último Nome, que jamais pode ser pronunciado, nem mesmo nas orações(*), é traduzido como “meu SENHOR” ou “O ETERNO”.

(* A única forma dO NOME autorizada para a pronúncia das quatro letras é HaVaYaH (Havaiá).) 

 

Os nossos sábios assinalam que o nome Elohím tem o mesmo valor numérico que a palavra “natureza”. Isto representa o envolvimento de D’us com o mundo no curso natural dos acontecimentos, quando o homem é julgado com rigor e justiça. O Nome de quatro letras representa o atributo Divino da misericórdia, quando ELE julga o homem, repleto de perdão e de imerecida bondade, realizando milagres e maravilhas.

Uma leitura atenta da Torá revela que apesar da idolatria que predominava no Egito, os egípcios acreditam em D’us. Ao serem surpreendidos com a praga dos piolhos, os conselheiros do faraó aconselham-no com as palavras: “Isto é o dedo de D’us” (Elohím) (Êxodo 8:15). E, no entanto, quando Moisés se encontrou diante do faraó e lhe transmitiu a ordem de D’us de libertar o povo judeu, o faraó lhe responde que como desconhecia HaVaYaH (o Nome de quatro letras), não libertaria o povo de Israel (Êxodo 5:2).

Apesar de os egípcios terem conhecimento da existência de D’us, ainda assim adoravam outros deuses e a própria natureza, por acreditar que cada um desses fosse uma fonte independente de poder no mundo. Até mesmo o Rio Nilo e o faraó eram tidos pelos egípcios como divindades a serem reverenciadas.

Não se trata de simples coincidência o fato de que o D’us dos hebreus tivesse castigado o Egito com pragas relacionadas à natureza. O rio adorado pelos egípcios vira um mar de sangue e suas terras, colheitas, posses e corpos são presa de uma série de catástrofes.

D’us ridiculariza tudo aquilo em que acreditavam. E ainda assim, o faraó não percebe ou finge não perceber que HaVaYaH, D’us de Israel, e o D’us da natureza (Elohím) são UM ÚNICO e MESMO, e que não há outras forças reinantes no mundo. D’us então ordena a Moisés que transmita este aviso ao faraó: “Assim falou HaVaYaH, D’us dos hebreus: Envia o Meu povo para que ME sirva. Porque desta vez EU mandarei todas as Minhas pragas a teu coração, a teus servos e a teu povo, para que saibas que não há como EU em toda a terra. Pois agora poderia estender Minha mão e ferir a ti e a teu povo com a pestilência, e serias aniquilado da terra. Entretanto, por isto é que te fiz ficar, para mostrar-te Minha força, e para que MEU Nome seja anunciado em toda a terra” (Êxodo 9:13-16). A mensagem é clara: o mundo não havia sido criado por D’us para ser abandonado nem tampouco deixado ao acaso das vicissitudes do destino, especialmente quando um perverso faraó acreditava reinar, supremo. Que os maus saibam disto e que a ruína do Egito lhes sirva de lição. E quanto aos bons e justos deste mundo, ainda que temporariamente se vejam cercados de problemas e sofrimento, devem ter a certeza de que D’us está sempre presente, a seu lado, em pleno controle de Seu mundo.

Aí está contida uma lição fundamental do Êxodo. Para que os homens não errassem como o fizeram os egípcios, o primeiro dos Dez Mandamentos é a revelação Divina de que ELE é HaVaYaH que tirou os judeus da escravidão no Egito. Se D’us SE tivesse revelado como O CRIADOR de tudo, poderíamos também acreditar que ELE estivesse confinado a este mundo tão natural por ELE criado. Os relatos celebrados em Pêssach nos lembram que só há Uma Única Fonte de todas as forças existentes no mundo. O mesmo D’us que fez de todos os rios do Egito mares de sangue, ESTE mesmo D’us pode fazer cair de joelhos o mais poderoso dos impérios, ao passo que pode elevar os escravizados e oprimidos às maiores alturas espirituais e materiais. Assim sendo, o Êxodo nos ensina que D’us está contido na natureza e além. ELE é Onipresente, está em todas as partes – nos Céus e, também, como ELE PRÓPRIO ordena a Moisés que diga ao faraó – “no meio da terra” (Êxodo 8:18).  HaVaYaH ouve nossas preces, realiza milagres e está sempre atento aos atos e pensamentos mais recônditos de todos os seres. E, mais ainda, com SUA ubiqüidade, dá forma ao curso dos eventos, ainda que nem sempre nos apercebamos disto. Em verdade, como pregam os místicos, ELE define tudo o que é real: apesar de o homem ser dotado de livre arbítrio, tudo o que ocorre provém de D’us. Não há força, poder ou razão de ser que não seja a SUA. A Torá assim o atesta: “(Pergunta…) se tentou D’us vir e tomar para SI uma nação do meio de outra nação por meio de provas, de sinais e de milagres, como tudo o que fez por vós HaVaYaH no Egito, diante de vossos olhos? A ti foi mostrado para que soubesses que HaVaYaH, ELE é D’us, e não há outro além d’ELE” (Deuteronômio 4:34-35).

Os sinais entre D’us e o povo judeu – o Shabát, a colocação dos tefilín e vários outros – têm uma razão específica para estar correlacionados com o Êxodo. É um lembrete eterno de que D’us preocupa-SE e está profundamente envolvido com os problemas dos homens. E, por isso, há um propósito Divino em se guardar os SEUS mandamentos. Com a libertação do povo judeu do Egito e a subseqüente outorga da Torá, D’us revelou-SE diante de toda uma nação. Com isto, ELE ensinou ao homem que este tem um propósito na vida e, portanto, receberia leis e diretrizes para poder cumprir sua missão pessoal e coletiva. Nós somos obrigados a nos lembrar disto todos os dias de nossa vida.

O dom da liberdade

Logo após libertar o povo judeu do jugo egípcio, D’us lhes outorga a Torá. É importante notar que quando D’us primeiro se manifesta a Moisés, ELE emite a seguinte ordem: “Porque… depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis D’us sobre este monte” (Êxodo 3:12). Tratava-se do Monte Sinai, local onde o povo judeu iria receber os mandamentos Divinos, com o encargo de mantê-los e transmiti-los a todas as gerações futuras.

Vemos, na Torá, que da mesma forma como D’us tem vários Nomes, ELE também tem várias formas de descrever SEU relacionamento com o povo judeu. ELE os chama de “Meus filhos”, “Meu primogênito”, entre várias outras formas carinhosas. Mas, também, com freqüência, os declara “Meus servos”. A interpretação para tal é que por tê-los salvo do faraó, D’us tornou-SE o novo Senhor dos judeus. Pois que está escrito: “…EU sou HaVaYaH, vosso D’us, que vos tirei da terra do Egito. E guardareis todos os MEUS estatutos e todos os MEUS decretos, e os cumprireis; EU sou HaVaYaH” (Levítico 19: 36-37). Em outras passagens, D’us dita ao povo judeu que seu propósito na vida é temer e servir ELE: “E agora, ó Israel, o que pede HaVaYaH, teu D’us, de ti? Apenas que temas HaVaYaH, teu D’us, que andes em todos os SEUS caminhos, ames e sirvas HaVaYaH, teu D’us, com todo o teu coração e com toda a tua alma; que guardes os mandamentos de HaVaYaH e os SEUS estatutos que EU te ordeno hoje, para o teu bem” (Deuteronômio 10:12-13).

Teria sido a liberdade adquirida durante o Êxodo uma troca de propriedade, ainda que por um Senhor infinitamente superior? Isto parece contradizer o próprio espírito de liberdade advindo da libertação.

Em verdade, o temor a D’us, da forma como é definido pela Torá e desde que adequadamente aplicado, constitui o próprio significado de liberdade. É a compreensão de que “não há outro além d’ELE” a permitir que o homem seja realmente livre, a optar por não fazer o mal a despeito das forças externas ou impulsos internos que pendam para o outro extremo. Este conceito é ensinado em um relato da Torá: quando o faraó ordenou que todos os recém nascidos judeus do sexo masculino fossem atirados ao mar, duas mulheres hebréias recusaram-se a cumprir a ordem. “E temeram D’us as parteiras, e não fizeram como lhes havia falado o rei do Egito, e deixaram os meninos viver” (Êxodo 1:17). Seus nomes eram Shifrá e Puá, que os sábios identificaram como Yochéved e sua filha Miriam. Como recompensa por terem temido D’us, desafiando a maligna ordem do faraó, ELE as recompensou fazendo delas a mãe e a irmã de Moisés. Este seu filho e irmão tornar-se-ia não apenas o líder do povo judeu em sua libertação do jugo egípcio, mas também o maior profeta de D’us de todos os tempos.

A lição contida neste relato é o segredo da verdadeira libertação do homem. Enquanto o homem temer e obedecer D’us, nenhum outro temor ou receio o deverá abater. Ele é livre para escolher a verdade, a justiça e o caminho da correção, a despeito dos imperativos e ameaças dos faraós de nosso mundo. Assim sendo, não é de surpreender que outros povos historicamente se tenham inspirado no Êxodo em sua luta pela liberdade. Os Estados Unidos, em particular, ao lutar contra os ingleses por sua independência e em sua luta interna pelos direitos civis de seus cidadãos, evocaram a memória do Êxodo dos judeus do Egito. Em referência direta à saída do povo judeu da escravidão para a liberdade, os fundadores da nação americana cunharam a frase: “Rebelar-se contra a tirania é obedecer D’us”.

A obediência a D’us é, de fato, o ponto máximo da revolta contra a tirania. No momento em que o homem percebe que D’us não é apenas Elohím, mas também HaVaYaH, O BONDOSO, AQUELE que controla todas as ocorrências, nesse momento já não há mais nada ou ninguém a temer. Apesar de não o perceber, o faraó nada mais é do que um joguete nas mãos do D’us Vivo de Israel. Isto é ilustrado por um fascinante ensinamento chassídico. A Torá nos conta que antes de lançar a oitava praga contra os egípcios, D’us ordena a Moisés ir ao palácio do faraó e, mais uma vez, exigir dele a libertação do povo judeu. D’us diz a Moisés: “Vem ao faraó” (Êxodo 10:1). A escolha das palavras é estranha; a ordem deveria ter sido “Vá ao faraó”. Os místicos judeus explicam que D’us de fato dizia a Moisés “Vem COMIGO ao faraó. Juntos entraremos no palácio da grande serpente. Juntos descobriremos o segredo mais cuidadosamente guardado pelo mal: o fato de que este mal, de fato, não existe. E quando aprenderes este segredo, nenhum mal há de te derrotar. Quando verdadeiramente absorveres este segredo, tu e teu povo serão verdadeiramente homens livres”.

A suprema libertação

A certa altura do Sêder de Pêssach, abrimos as portas para receber o espírito do profeta Eliahu, ou Elias. Também lhe dedicamos uma taça de vinho – a quinta taça do Sêder. Em seu tempo, o profeta Eliahu declarou a D’us que todo o povo judeu O havia abandonado (Reis 19:10). E, por este motivo, o profeta visita todas as casas nos Sedarim de Pêssach para testemunhar que, apesar dos milhares de anos de exílio e mesmo nas circunstâncias de maior provação, o povo judeu permaneceu fiel a HaVaYaH, e continua celebrando a outorga desse SEU presente – a liberdade.

O profeta Eliahu também visita o Sêder pelo fato de este ser não apenas uma comemoração do passado, mas uma exaltação ao futuro. O Êxodo e todos os seus milagres, a libertação do povo judeu e sua jornada para a Terra Prometida, prenunciam um futuro de uma redenção ainda maior. Há um ensinamento que nos diz que o profeta Eliahu será aquele a anunciar a chegada dessa nova era.

Em nossas orações, denominamos a festa de Pêssach de Zman Heruteinu, a “época de nossa liberdade”. Não nos referimos à mesma como “época de nosso júbilo”. Isto porque, apesar de suas maravilhas e milagres extraordinários, e apesar de ter sido feita justiça, não nos rejubilamos com o sofrimento e a morte de outros povos.

A libertação final, no entanto, será uma era de júbilo perene e ilimitado para todos os povos. Enquanto o primeiro Êxodo só envolveu o povo judeu, o próximo irá incluir o mundo todo(*). Todos os judeus retornarão à Terra de Israel e lá viverão em segurança para sempre. Toda a humanidade somente conhecerá a paz e a prosperidade. Não mais haverá sofrimento individual nem coletivo. Enfermidades, pobreza, ignorância, angústia e mesmo morte serão fenômenos do passado. E aqueles que já deixaram este mundo retornarão ao nosso convívio.

(* Porque o mundo inteiro então não só acreditará na existência do Elohím, mas O conhecerá – o mundo todo conhecerá HaVaYaH.)

 

Ainda iremos nos reunir, todos, em Jerusalém, como proclamamos na conclusão do Sêder de Pêssach. Pois que HaVaYaH nos prometeu, em Miquéias 7:15, …“Como nos dias de tua saída do Egito, EU te mostrarei maravilhas”. Que seja a SUA vontade que isto ocorra de pronto, ainda em nossos dias.

 

Para A Prova da Existência de D’us, Parte 3, veja

· Três níveis de percepção do Divino

A Prova da Existência de D’us, Parte 3

 

A Prova da Existência de D’us, Parte 3

 

Três níveis de percepção do Divino

A Hagadá de Pêssach, recitada durante o Sêder, conta a história de como o povo judeu, que começou como uma família de 70 pessoas, se tornou uma grande nação – o Povo escolhido por D’us para receber SUA Torá.


 

A Hagadá nos conta acerca de eventos que precedem e sucedem o Êxodo – a amarga escravidão sofrida por nossos antepassados, as Dez Pragas que venceram o Faraó, o Êxodo, a divisão do Mar e a outorga da Torá no Monte Sinai, entre outros. Mas, o clímax do processo de constituição dos judeus em uma nação ocorreu não em 15 de Nissan – dia do Êxodo e primeiro dia de Pêssach – mas 50 dias mais tarde, quando D’us SE revelou a todos os Filhos de Israel e lhes deu a Torá – um evento que é comemorado na festa de Shavuót.

As festividades de Pêssach e Shavuót são ligadas de forma indissolúvel. Começando na segunda noite de Pêssach e terminando no dia antes de Shavuót, fazemos a contagem do Ômer – um mandamento de grande significado místico. Durante os 49 dias dessa contagem, somos obrigados a trabalhar sobre nós mesmos e a aumentar nossa espiritualidade para que, em Shavuót, o dia cujo tema é nossa dedicação ao estudo e ao cumprimento da Torá, possamos estar em um nível espiritual mais elevado do que estávamos antes do início de Pêssach. O processo do crescimento espiritual que se inicia em Pêssach culmina, pois, em Shavuót.

A seguir analisaremos três marcos no processo que se iniciou quando Moshé foi enviado por D’us para libertar o Povo Judeu e que culminou com a Revelação Divina no Monte Sinai. Tais marcos são as Dez Pragas que se abateram sobre o Egito, a divisão do Mar de Juncos e o recebimento da Torá.

As Dez Pragas

Quando D’us SE faz ver a Moshé e lhe atribui a missão de voltar ao Egito e libertar o Povo Judeu da escravidão, o profeta responde: “Mas eles não acreditarão em mim, nem ouvirão minha voz, pois dirão: ‘HaVaYaH não apareceu a ti!'” (Êxodo, 4:1). D’us então lhe diz que tome seu cajado e o atire ao chão, e, ao fazê-lo, o cajado se transforma em uma serpente. HaVaYaH ordena que Moshé agarre o rabo da serpente, e ele obedece. A víbora volta a ser o cajado. D’us instrui Moshé a realizar esse milagre diante dos judeus para que “… creiam que HaVaYaH, D’us de teus pais – o D’us de Abrahão, o D’us de Isaac e o D’us de Jacob – apareceu a ti!” (Ibid, 4:5). Mas, caso um sinal não fosse suficiente para fazê-los acreditar, D’us dá a Moshé um segundo milagre, dizendo-lhe que se mesmo realizando os dois o povo não desse atenção a suas palavras: “Tomarás das águas do Nilo e derramarás no seco; e as águas que tomarás do rio tornarse-ão sangue no seco” (Ibid, 4:9).

Essa passagem da Torá deixa claro que D’us, que é Onisciente, sabia que a maneira mais rápida de fazer com que o Povo Judeu acreditasse NELE e em Moshé seria através da realização de milagres. Os judeus – escravizados, desesperados e desesperançados – necessitavam de milagres para acreditar que o D’us de seus antepassados não os tinha renegado. E assim, quando Moshé volta ao Egito, ele e seu irmão Aharon reúnem os anciãos judeus, diante de quem Moshé realiza os milagres, segundo as instruções Divinas. Ao testemunhar os milagres, “o povo acreditou, e compreenderam que HaVaYaH visitara os Filhos de Israel e vira sua aflição, e curvaram-se e se prostraram”. (Ibid, 4:31). Quando Moshé e Aharon, então, invadem o palácio do Faraó e exigem a libertação do Povo Judeu, eles não pedem misericórdia nem ameaçam com algum tipo de rebelião. Em vez disso, realizam milagres, exatamente como haviam feito antes perante os judeus. Pois D’us havia dito a Moshé: “E não vos escutará o Faraó, e porei Minha mão sobre o Egito, e tirarei os Meus exércitos, o Meu povo, os filhos de Israel da terra do Egito, com grandes juízos. E o Egito saberá que EU sou HaVaYaH, ao estender a Minha mão sobre o Egito, e tirarei os Filhos de Israel dentre eles”. (Ibid, 7:4-5). De fato, a confrontação entre o líder egípcio e Aharon e Moshé foi um duelo sobrenatural. Para provar ao Faraó que falavam em Nome de D’us, Aharon atirou o cajado de seu irmão e o transformou em serpente. Mas o Faraó chama seus sábios feiticeiros, que conseguem repetir o feito. O rei egípcio pressupõe que Moshé e Aharon são magos como os seus, e não leva a sério sua alegação de que falam em Nome do Altíssimo. É nesse ponto que o episódio das Dez Pragas se inicia.

A primeira delas transformou o Nilo em sangue. Aharon ergue o cajado e toca o Nilo, tornando suas límpidas águas sangue puro. Mas os feiticeiros egípcios conseguem replicar esse milagre, e o Faraó, assim sendo, imagina que Moshé e Aharon apenas executavam mágicas – prática comum no Egito. Os bruxos egípcios conseguem, pois, replicar a segunda praga, mas não a terceira, e dizem ao Faraó que essa última não era magia, mas “o dedo de D’us”. Mas o Faraó supõe que também a terceira deveria ser algum tipo de bruxaria mais elevada e que, certamente, os dois irmãos deviam ser melhores na magia que seus magos. Somente quando a sexta praga, a sarna, na realidade, bolhas que se transformavam em úlceras, causando grande sofrimento físico, assola o Egito, seus bruxos ficam totalmente desmoralizados. Pois, apesar de serem profundos conhecedores da magia negra, eles não conseguem proteger nem a si próprios. Tornava-se cada vez mais claro aos egípcios que Moshé não era um simples mago e que as pragas eram verdadeiramente obra de D’us.

À medida que as demais pragas trazem cada vez mais destruição e miséria ao Egito, os emissários do Faraó lhe imploram: “Até quando isto será um impedimento para nós? Envia os homens, e que sirvam HaVaYaH, seu D’us! Ainda não notastes que o Egito está perdido?” (Ibid, 10:7). Mas foi preciso que viesse a décima e última praga – a morte dos primogênitos – para finalmente quebrar o Faraó. Ele tinha sido alertado várias vezes por Moshé para que tivesse a chance de se arrepender, salvando a si próprio e a seu povo. Bem verdade que D’us endurecera o coração do Faraó, dificultando o seu arrependimento, sendo isto uma forma de punição por suas más ações – mas a porta do arrependimento nunca esteve totalmente fechada para ele. Mas, apesar das pragas e do sofrimento que se seguiu, o Faraó se recusou a ver a Mão de D’us. Suas racionalizações, seu desprezo pelos demais e sua teimosia levaram à sua trágica queda e à destruição de seu poderoso reino.

No que tange ao Povo Judeu, eles observaram as Dez Pragas dizimarem o Egito enquanto permaneciam a salvo. Claramente, isso não foi obra do acaso. Com cada praga que atingia o Egito, os judeus se convenciam de que o D’us de seus antepassados não os tinha abandonado. Tinha vindo resgatá-los da escravidão e do genocídio, e interferia abertamente em Seu mundo para punir aqueles que vitimavam o Seu povo. Vinha salvá-los com Sua mão poderosa e Seu braço estendido.

A divisão do Mar

No entanto, nem as Dez Pragas foram suficientes para convencer os egípcios de que foi D’us – e não Moshé e Aharon – quem viera libertar os judeus. Apenas alguns dias após permitir que o Povo Judeu deixasse o Egito, o Faraó e a totalidade de seu exército saem à caça dos fugitivos judeus para trazê-los de volta. Apesar do terror das pragas, os egípcios estavam tão confiantes na vitória que, nessa saída militar, adornam seus cavalos com ornamentos em ouro, prata e pedras preciosas.

O Povo Judeu havia deixado o Egito no dia 15 de Nissan. Em torno do dia 20, o Faraó e seu exército tinham-nos alcançado. E os judeus se vêem presos em uma armadilha: tinham atrás de si o Faraó e seus homens, e à sua frente o Mar de Juncos. Apesar de tudo o que tinham presenciado no Egito, ficaram desesperados e gritam a Moshé: “Foi porque não havia sepulcros no Egito que nos trouxeste para morrer no deserto? O que nos fizeste, ao nos tirar do Egito?” (Ibid, 14: 11). Cheios de temor, os judeus dizem a Moshé: “Deixa-nos e serviremos os egípcios. Pois nos é melhor servir os egípcios do que morrer no deserto!” (Ibid, 14: 12).

Moshé ora a D’us e ELE lhe ordena: “Toma teu cajado e estende tua mão sobre o mar e fende-o, e que os Filhos de Israel entrem pelo meio do mar, em seco”. (Ibid, 14: 16). As águas do Mar de Juncos se abrem, permitindo que os judeus atravessem. Os egípcios, que claramente não haviam aprendido a lição com as Dez Pragas, saem no seu encalço. Quando o exército do Faraó está no meio do mar, D’us começa a castigá-los. Em pânico, os egípcios exclamam: “Fugirei diante de Israel, pois HaVaYaH luta por eles contra o Egito!” (Ibid, 14: 25). Mas sua sorte já fora selada. Seguindo instruções Divinas, Moshé estende sua mão sobre o mar e, na manhã do 21° dia de Nissan, sétimo dia de Pêssach – que, na Terra de Israel, é o último dia da festividade – as águas voltam a se unir e engolem todo o exército do Faraó.

A divisão do Mar foi o ponto culminante do Êxodo, pois mesmo depois de os judeus terem fugido do Egito, o exército desse país permaneceu intacto e a ameaça da volta à escravidão ainda existia. No mar, os judeus foram perseguidos por uma força militar extremamente poderosa, que facilmente os teria vencido e capturado. Segundo o Midrash, havia 30 egípcios para cada judeu. Somente quando o mar se dividiu e engoliu o exército egípcio foi que o êxodo judeu realmente se completou. No 15º dia de Nissan – dia em que os judeus deixaram o Egito, primeiro dia de Pêssach – D’us puniu o Egito com a 10ª praga, mas os judeus deixaram o país como escravos em fuga. No 21º dia de Nissan, após a divisão do Mar, como vimos acima, os judeus se tornaram um povo verdadeiramente liberto. Contudo, há uma razão mais profunda para a divisão do mar ser mais importante do que as Dez Pragas. No Egito, os judeus presenciaram ocorrências sobrenaturais, mas quando o Mar de Juncos se abriu ao meio, todos os judeus adquiriram a condição de profetas. Está escrito no Midrash que mesmo o mais simples dos judeus “viu no Mar de Juncos o que não fora visto nem pelo profeta Ezequiel”, cuja visão da Carruagem Divina é a base do estudo da Cabalá. No Mar de Juncos, os Céus se abriram; todos os judeus, mesmo as crianças, tiveram uma visão do mundo infinito. Por essa razão foi naquele momento, e não antes – nem mesmo durante as pragas que se abateram sobre o Egito – que “o povo temeu HaVaYaH, e creram em HaVaYaH e em Moshé, Seu servo” (Ibid, 14:31).

Antes dessa experiência profética, os judeus haviam testemunhado vários milagres e maravilhas. Mas sua fé em D’us e em Seu emissário não era absoluta. Como fizera o Faraó, eles também poderiam ter racionalizado sobre o que ocorrera no Egito. Talvez as Dez Pragas tivessem sido uma coincidência – muito pouco provável, certo, mas ainda assim uma coincidência. Talvez houvesse alguma explicação natural para elas terem caído sobre os egípcios e não sobre os judeus. Talvez o Faraó e seus feiticeiros estivessem certos: Moshé e Aharon eram apenas super-magos que tinham conseguido manipular a natureza para destruir o Egito, enquanto protegiam os judeus.

Resumindo, pura e simplesmente, as Dez Pragas não eram prova suficiente – nem para os judeus, que entraram em pânico diante do mar, nem para os egípcios, que foram atrás deles.

Mas, com a divisão do mar, tais dúvidas se desvaneceram. Os egípcios por fim reconheceram A Verdade – infelizmente, quando já era tarde. Para os judeus, não se tratou de mais outro milagre, mas do ponto de partida para o objetivo supremo do Êxodo – o recebimento da Torá – que somente poderia ter ocorrido depois dos Filhos de Israel vivenciarem as revelações espirituais da divisão do mar. No sétimo e último dia de Pêssach todos os judeus se tornaram profetas. D’us SE tornou uma realidade tão palpável que, na Canção do Mar, entoada pelo Povo Judeu em louvor a D’us por sua salvação, as crianças proclamaram: “ESTE é meu D’us!”, indicando claramente perceber a Presença Divina.

A experiência profética que ocorreu no Mar de Juncos preparou os judeus para a Revelação Divina que iria ocorrer no Monte Sinai, apenas 50 dias após o Êxodo.

A Revelação Divina no Sinai

Se o povo vivenciou a visão de D’us durante a divisão do Mar, que necessidade haveria da ocorrência da Revelação Divina no Monte Sinai?

São muitas as respostas, mas talvez a principal seja que é extraordinariamente difícil negar um evento testemunhado por milhões de pessoas. Um único indivíduo pode fabricar ou imaginar uma história, e as pessoas podem optar por acreditar ou não em suas palavras. Mas é muito difícil convencer terceiros da veracidade de um evento envolvendo milhões de pessoas se tal evento não ocorreu.

Se não tivesse ocorrido a Revelação Divina no Sinai, seria possível questionar a origem Divina do judaísmo. Poder-se-ia alegar que Moshé foi um grande líder carismático, um mago; mas jamais um verdadeiro profeta de D’us. Poder-se-ia mesmo acusá-lo de ser um impostor ou simplesmente desacreditá-lo, rotulando-o de um esquizofrênico que, no entanto, acreditava ter ouvido o chamado da Voz de D’us. Mas, quando até o mais simples dos judeus se tornou um profeta à beira do Mar de Juncos e, em especial, quando todos eles – (três) milhões de pessoas – ouviram a Palavra de D’us aos pés do Monte Sinai, não mais havia lugar para dúvidas sobre a origem da Torá. Isto explica por que até mesmo os maiores oponentes de Moshé, como seu primo Côrach, não puderam negar ser ele um verdadeiro profeta de D’us. Durante sua longa jornada de 40 anos pelo deserto, muitos judeus falsamente acusaram Moshé de crimes terríveis – nepotismo, roubo, até mesmo de adultério – mas eles nunca ousaram sugerir que ele fosse impostor, charlatão ou alucinado. Pois que eles, afinal, tinham presenciado a Revelação de D’us e quando ELE PRÓPRIO chamou Moshé para ascender ao Monte Sinai para receber a Torá. D’us SE assegurou de que seria impossível alegar que SUA Torá era um relato de ficção. E é por essa razão que mesmo os maiores inimigos do Povo Judeu, mesmo aqueles que quiseram converter todos os judeus, nunca negaram a verdade histórica do judaísmo. (Veja

https://a-fe-original–noaismo.info/2016/09/05/nao-sao-similares-as-historias-de-moises-e-mohammad/   . )

Uma segunda razão para a Revelação Divina no Monte Sinai é que D’us transmitiu ao Povo Judeu os meios de se conectarem a ELE – e isto é feito através da Torá. Se ELE jamais SE tivesse revelado, as pessoas alegariam que a Torá era criação de Moshé. No Monte Sinai, D’us fez o Povo Judeu jurar que iria preservar a Torá: assim sendo, SUA Lei não poderia ser descartada com um código de leis criado pelo homem.

Através da Torá, D’us nos permitiu conectarmo-nos com ELE. Um homem pode considerar-se sábio e espiritualizado. Mas, pelo fato de ser finito, não pode compreender os Desígnios de D’us. O homem requer que D’us lhe aponte o que fazer. No Monte Sinai, D’us nos jogou uma corda que nos permite manter uma conexão com ELE. Quando estudamos a SUA Torá, absorvemos uma centelha de SUA Sabedoria Infinita. Quando realizamos SEUS mandamentos, tornamo-nos instrumentos no cumprimento de SUA Vontade na Terra. E quando estendemos a mão para ajudar os outros, tornamo-nos agentes da bondade e plenitude Divinas no mundo.

Cinquenta dias após deixarem o Egito, os judeus ouviram a Voz de D’us que lhes falava. O MESTRE do Universo proclamou os Dez Mandamentos que são o núcleo dos 613 Mandamentos da Torá. Quem lê a Torá em hebraico sabe que os Dez Mandamentos foram dirigidos na 2ª pessoa do singular. No Monte Sinai, D’us não SE dirigiu ao Povo Judeu como um todo. ELE falou pessoalmente a cada um de nós, pois a alma de cada um de nós esteve presente no Monte Sinai quando D’us SE revelou aos Filhos de Israel. E cada vez que abrimos a Torá, cada vez que a estudamos e praticamos o que nos ensina, estamos revivendo aquele dia tão monumental na história da humanidade.

A percepção do Divino

A Torá é eterna e é uma lição para todo judeu. Com efeito, a raiz da palavra Torá é Hora’á, que literalmente significa “instrução”. Cada vez que estudamos um trecho da Torá, devemos tirar uma lição do mesmo. Quais são, portanto, as lições transmitidas por nosso estudo dos três marcos que vimos acima: as Dez Pragas, a divisão do mar, e a Revelação Divina no Sinai? Estes marcos representam três estágios na percepção que a pessoa tem de sua relação com D’us. O primeiro ocorre quando se vivencia um milagre – um evento muitíssimo improvável: uma cura milagrosa, um socorro financeiro quando mais se necessita, a salvação em momento de extrema dificuldade, uma coincidência extraordinária ou qualquer evento que nos leve a crer que o mundo não funciona por si só. Os milagres servem para nos lembrar que há “Alguém” que rege os acontecimentos e que nos guarda. A isso o judaísmo chama de Divina Providência.

Mas os milagres são apenas o primeiro estágio de conscientização sobre o Divino, pois dificilmente causam uma impressão duradoura. A pessoa pode ficar grata e se sentir inspirada por um milagre, e isto pode fazê-la reconhecer o envolvimento de D’us em sua vida, mas, mais cedo ou mais tarde, poderá vir a acreditar que o milagre foi apenas uma grande coincidência. Os egípcios testemunharam eventos sobrenaturais – as Dez Pragas – mas os racionalizaram como coincidências infelizes ou mágicas usadas para manipular a natureza. No que tange aos judeus, apesar dos milagres que presenciaram, foi somente no Mar de Juncos que eles finalmente “creram em HaVaYaH e em Moshé, SEU servo”.

O segundo estágio da ligação com D’us é simbolizado pelo episódio no Mar de Juncos. Como está escrito no Talmud, nós, judeus, talvez não sejamos todos profetas, mas descendemos dos profetas. Todos nós, em maior ou menor grau, possuímos um pequeno dom para a profecia. Todos tivemos experiências espirituais. Para alguns, pode ser algo simples como receber uma mensagem em um sonho que se torna realidade; para outros, pode ser um sexto sentido aguçado; e para poucos judeus privilegiados, pode ser algo tão dramático como ver almas ou vivenciar uma experiência de quase-morte, em que a pessoa tem uma visão do mundo futuro. Uma experiência genuinamente espiritual causa uma impressão bem mais acentuada do que um milagre, pelo fato de ser muito mais difícil de atribuí-la a uma coincidência. Um milagre é uma improbabilidade estatística, mas uma percepção do mundo espiritual é algo vivenciado. É um evento que transforma a vida de quem a percebe.

Contudo, podemos perguntar-nos: como podemos saber se uma experiência espiritual não é produto da imaginação ou de um alucinógeno? Como diferenciar um profeta de um esquizofrênico? No antigo Israel, quem alegava ter recebido uma mensagem profética era rigorosamente examinado por verdadeiros profetas e sábios para verificar de quem se tratava – profeta ou louco. Uma experiência espiritual tem valor quando serve de ponto de partida para se chegar a um nível mais alto de conscientização do Divino, o que é alcançado através do estudo e da prática de SUA Sabedoria e Vontade.

O fato de uma pessoa realizar milagres não significa nada; afinal, os feiticeiros idólatras egípcios eram magos de grande alcance. E mesmo as vivências espirituais genuínas, por mais fascinantes que sejam, não conseguem mudar o mundo. A pessoa pode meditar e mesmo levitar dias inteiros, mas, com isso, não fará deste um mundo mais Divino. Por outro lado, aquele que se dedica a estudar a Sabedoria Divina e a verdadeiramente cumprir a Vontade Divina, praticando atos de santidade e bondade, faz muito mais do que meramente tocar os Céus: essa pessoa traz os Céus para a Terra. O homem pode ser um milagreiro, profeta ou sábio – pode estar na mais alta das montanhas e compreender tudo o que pode ser compreendido – contudo, ele nada mais é do que um ser humano finito, com os pés no chão. Acima dele está um D’us Infinito, que é desconhecido, impalpável e que não pode ser compreendido. Como pode, então, o homem finito, por maior que seja, alcançar O INFINITO? Sua própria libertação e a única libertação do mundo inteiro se dão quando O Altíssimo chega aqui embaixo e lhe diz, e diz a todos nós: “Estudem isto. Façam aquilo. E através de seu estudo de Minha Sabedoria e seu cumprimento de Minha Vontade vocês estão ligados a MIM”. Quando isto acontece, o homem e D’us se unem a um tal ponto em que não mais existem o finito na Terra e O INFINITO nos Céus. E passa a existir apenas UM.

 

Para A Prova da Existência de D’us, Parte 4, veja

· As Dez Pragas do Egito

A Prova da Existência de D’us, Parte 4

 

A Prova da Existência de D’us, Parte 4

 

As Dez Pragas do Egito

Dez calamidades castigaram o Egito antes da saída dos filhos de Israel desta terra. Através delas, D’us demonstrou a toda humanidade o seu infinito poder.


 

O episódio das Dez Pragas, chamadas em hebraico de Macot Mitsraim, literalmente Pragas do Egito, relatado e elucidado na Hagadá de Pêssach, consta no Livro do Êxodo. Numa primeira leitura, a aparente razão para tais calamidades foi a obstinada recusa do Faraó em obedecer a ordem de HaVaYaH de libertar Israel. No entanto, se este fosse o único propósito, um único golpe devastador teria sido suficiente. Por que, então, D’us optou por dez calamidades? Porque, através das Dez Pragas, HaVaYaH demonstrou não apenas ser O CRIADOR do Universo, mas SENHOR Único e Absoluto dos Céus e da Terra, JUIZ Supremo e FORÇA Regente da Natureza. No Egito, a contundente revelação da Onipotência Divina fez com que mesmo os mais incrédulos entre os Filhos de Israel fossem obrigados a reconhecer o ilimitado Poder Divino. O principal objetivo das múltiplas pragas foi, portanto, demonstrar a Israel que O D’us de seus ancestrais, D’us de Avraham, Yitzhak e Yaacov, é D’us Único, SENHOR sobre a natureza e sobre as outras nações, e que não há outro além DELE.

As pragas serviram também como o grande castigo pela escravidão, tortura e campanha de genocídio perpetrada pelos egípcios contra o Povo Judeu. Mas a Torá não é um simples compêndio de história judaica e o judaísmo não permite celebrar o sofrimento alheio, ainda que seja o dos inimigos de Israel. As Dez Pragas são relatadas na Torá e na Hagadá não como celebração da Justiça Divina, mas como fonte de lições espirituais.

A Criação e as Dez Pragas

O primeiro dos Dez Mandamentos afirma: “EU sou HaVaYaH, teu D’us, que te tirou do Egito da casa da escravidão”, e não, “Eu sou HaVaYaH, teu D’us, que criou o universo”. Explicam nossos Sábios que, através deste primeiro mandamento, D’us alerta os homens de que ELE não é apenas O CRIADOR, mas está presente e profundamente envolvido em cada detalhe da vida de cada uma de suas criaturas.

O conceito de CRIADOR do Universo é extremamente abstrato e a Criação é um dos grandes segredos do universo. O pouco que se sabe a respeito faz parte da Cabalá e vem sendo transmitido, de geração em geração, para uns poucos escolhidos entre os líderes espirituais do Povo Judeu. Em geral, o assunto é inacessível, mesmo aos mais eruditos. Já o episódio das Dez Pragas pode e deve ser aprendido por todos, inclusive as crianças. A razão é que, ainda mais do que a Criação, as Dez Pragas demonstram a Onipotência Divina em SUAS diferentes manifestações.

E, se durante a Criação, somente O PRÓPRIO CRIADOR estava presente, quando dos acontecimentos no Egito, milhões de judeus e egípcios testemunharam e vivenciaram os milagres realizados por D’us. E para os mais céticos que não aceitam a Torá como a Palavra de D’us, há documentos egípcios e evidências históricas e arqueológicas que atestam as terríveis catástrofes que se abateram sobre o Egito, na época em que ocorreu o Êxodo.

No decorrer das Dez Pragas, HaVaYaH revelou SEU controle absoluto sobre a natureza. Utilizando-SE de pragas naturais, manifestas, no entanto, de forma sobrenatural, demonstrou, que está simultaneamente na natureza e acima desta, pois ELE não é limitado por qualquer elemento de SUA criação. E, não foi simples coincidência o fato de ter optado por castigar o Egito com pragas relacionadas à natureza, pois, para os egípcios, o rio Nilo, os animais e o próprio Faraó eram considerados divindades. HaVaYaH quis demonstrar que nenhuma suposta divindade poderia deter SUA vontade, pois que cada elemento da natureza era SEU servo. D’us queria tirar dos judeus qualquer vestígio de paganismo porventura assimilado em sua longa permanência naquela terra. Além do mais, no Egito, idolatrava-se a matéria – a abundância e a fartura – e, ao transformar o Nilo em sangue, ao destruir as colheitas e os bens egípcios, D’us provou que a Terra inteira LHE pertence e que tudo que o homem possui advém DAQUELE que a tudo criou.

Os castigos que se abateram sobre todo o Egito não atingiram os judeus que lá viviam ou a terra de Goshem onde habitavam. Ao fazer esta distinção entre o opressor e o oprimido, manifestou-se no mundo terreno a Justiça Divina. Foi revelado ao homem que todos seus atos têm consequências, sejam bons ou ruins. As pragas revelaram, também, o poder e eficácia da oração e da ligação com D’us, pois foram as orações de Moshé que puseram fim a cada uma das pestilências.

Por que dez?

As Dez Pragas castigaram o Egito durante praticamente um ano, iniciando-se no fim do mês de Iyar e terminando apenas no dia 15 de Nissan. As primeiras sete pragas constam no Livro do Êxodo, na porção Va’eirá (7:19-9:35), e as últimas três na porção Bô (10:1-12:33).

A sequência de eventos que antecedem as pragas tem início quando o Faraó se recusa a obedecer à ordem Divina transmitida por Moshé e Aharon: “Envia MEU povo para que festejem para MIM no deserto” (5:2). O rei do Egito responde com insolência: “Quem é HaVaYaH para que eu escute SUA voz e deixe partir o Povo de Israel? Não conheço HaVaYaH e também não despacharei Israel” (5:2). E, num gesto desafiador, decide afligir ainda mais os Filhos de Israel. Ordena a seu povo que não mais entreguem aos judeus a palha necessária para a confecção dos tijolos; a partir de então lhes caberia o esforço adicional de buscar a matéria-prima para cumprir suas cotas diárias. O não-cumprimento era punido com tortura física. Seu sofrimento tornara-se ainda mais insuportável e, ao ser questionado por Moshé, D’us responde: “Agora verás o que farei ao Faraó”. Nosso profeta e toda a humanidade iriam testemunhar como  HaVaYaH redimiria o SEU povo.

A pergunta, porém, permanece: Por que, ao invés de atingir os egípcios com um único golpe, D’us optou por um processo gradual e crescente? Por que foram necessárias Dez Pragas? Segundo nossos Sábios, são inúmeros os motivos. O Midrash revela que cada praga foi consequência direta de uma ação específica e equivalente mau-trato, tortura ou crueldade perpetrados pelos egípcios contra os Filhos de Israel. A Justiça Divina determinara que os egípcios deveriam ser punidos “medida por medida” pelas crueldades cometidas contra SEU Povo. Além do mais, a sucessão de pragas e os avisos que as precederam eram necessários para dar ao Faraó a oportunidade e o tempo de reconsiderar suas ações, arrependendo-se da crueldade perpetrada contra os judeus. Somente após o rei do Egito ter “endurecido seu coração” e, repetidamente, se recusado a libertar o povo judeu, as portas do arrependimento finalmente se fecharam. O Rabi Maimônides explica que, às vezes, o castigo que D’us impõe a quem cometeu um grave pecado é privá-lo da possibilidade de se arrepender. Este é o significado da expressão usada na Torá, “endurecerei o coração do Faraó”.

As Dez Pragas formam um sistema coerente, de intensidade crescente. A cada recusa do Faraó em atender a ordem Divina de deixar Israel partir, uma nova calamidade se abate sobre o Egito. As primeiras nove são divididas em três séries, de três pragas cada, que se sucedem de acordo com um plano. Cada série aumenta em progressão em direção a um clímax, sendo que a última serve de prelúdio para a décima praga – a Morte dos Primogênitos. Em cada série D’us manifesta SEU poder, mudando o curso das leis da natureza em uma das três esferas da Criação – a terra, a atmosfera e os céus.

Segundo Rabi D. Isaac Abravanel, um dos objetivos das pragas era convencer o Faraó, seu povo e, consequentemente, toda a humanidade de três verdades fundamentais sobre D’us: SUA Existência, SUA Divina Providência – ou seja, que a Mão de D’us está presente em tudo o que acontece na vida dos homens e das nações – e SUA Onipotência. Por isto, a primeira praga de cada grupo é precedida por uma declaração que caracteriza um desses princípios.

A primeira série: sangue, rãs e piolhos

“Assim falou D’us: ‘Nisto saberás que sou HaVaYaH'” (7:17). A afirmação indica que o objetivo da primeira série é estabelecer a inegável existência de um D’us Único, CRIADOR Absoluto e SENHOR do Universo.

A primeira praga atinge o Nilo – considerado pelos egípcios uma divindade. Ráshi, o comentarista clássico da Torá, explica que, como havia escassez de chuvas no Egito, a principal fonte de água era este rio que, ao extravasar, irrigava a terra. Por isso os egípcios o consideravam a divindade responsável pelo seu sustento. Quando, seguindo a ordem Divina, Aharon golpeia o Nilo com seu cajado, não só suas águas, mas as de todo o Egito, transformam-se em sangue. A primeira praga veio para demonstrar aos egípcios que sua “divindade, o rio”, não era capaz de deter a Vontade dO CRIADOR. O Midrash explica que, para os judeus, a transformação das águas do Nilo em sangue foi muito significativa, pois compreenderam que D’us estava punindo os egípcios por terem jogado nas águas daquele rio o sangue de seus filhos.

Pela segunda vez o Faraó se recusa a libertar Israel. D’us, então, ordena a Aharon que estenda novamente a mão sobre o Nilo. Rãs, cujo coaxar enchia os ares, emergem do rio e se multiplicam incessantemente, invadindo as casas egípcias. A segunda praga era a prova de que não só o Nilo não conseguira deter a Vontade dO CRIADOR, mas que, ao produzir as rãs, o próprio rio estava a SEU serviço.

Uma terceira praga castiga o Egito, após nova recusa do Faraó em se dobrar perante D’us. Após Aharon ter golpeado o pó com o cajado, seguindo a ordem Divina, a terra de todo o Egito se transforma em piolhos e pequenos insetos, que picam mortalmente os egípcios e seus animais. Foi no decorrer desta terceira praga que os feiticeiros egípcios alertam seu rei que Moshé e Aharon não eram magos nem tampouco eram “as ocorrências” fruto de algum tipo de feitiçaria. Eram enviados de D’us. Segundo o Midrash, foi no final dessa praga que os judeus pararam de trabalhar para os egípcios.

Esta primeira série de pragas foi lançada por Aharon e não por Moshé, porque este tinha um débito de gratidão com as águas do Nilo e com a terra do Egito. Quando Moshé nasceu, sua mãe, para salvá-lo do édito infanticida egípcio, colocou-o numa cesta sobre o rio e as águas o mantiveram vivo, conduzindo-o até Batiá, filha do Faraó, que o resgatou. A terra também o ajudou, pois encobriu o corpo de um algoz egípcio, que Moshé matara para salvar a vida de um judeu. D’us, portanto, incumbiu Aharon de lançar as primeiras três pragas, porque, como ELE PRÓPRIO afirma, “as águas que cuidaram de ti quando foste lançado ao Nilo…e a terra que veio em teu auxílio quando mataste o egípcio…não é justo que por ti sejam amaldiçoadas”.

A segunda série: animais selvagens, peste e sarna

Iniciando o segundo grupo, a quarta praga é precedida pela declaração Divina: “Para que saibas que sou HaVaYaH no meio da terra” (8:18). Por todo o Egito, bandos de animais selvagens, cobras e escorpiões atacam os egípcios, mesmo dentro de seus lares, e destroem tudo que encontram pelo caminho. Mas, como D’us afirmara, “Separarei nesse dia a terra de Goshem”, nenhum destes animais adentrou na terra onde habitavam os judeus. Segundo Ráshi, numa clara demonstração de SEU Poder, mesmo os judeus que estavam em outros lugares não foram atacados.

A quinta praga é uma peste fatal que mata os animais domésticos dos egípcios que pastavam nos campos, inclusive os carneiros, que eram considerados um de seus deuses. No entanto, nenhum animal de qualquer judeu foi atingido. Segundo Rabi Alkabetz, a partir daquele momento o sofrimento egípcio se tornou tão intenso, que até o Faraó já estava disposto a ceder. D’us, no entanto, endureceu-lhe o coração, pois queria que os Filhos de Israel vissem a totalidade e abrangência de SUA Força e aprendessem a NELE ter fé.

A sexta praga que atinge os egípcios e seus animais, geralmente chamada de sarna, era na realidade, bolhas que se transformavam em úlceras, causando grande sofrimento físico. Mesmo os feiticeiros egípcios foram atingidos pela doença.

Esta segunda série de pragas foi uma clara demonstração de que a Providência Divina, a Mão de D’us, está presente em tudo o que acontece. O fato de nenhum judeu ter sido atingido era mais uma prova de que D’us controla tudo que ocorre no mundo, inclusive o comportamento dos animais e as aflições físicas.

O terceiro grupo: granizo, gafanhotos e escuridão

O objetivo desta última série de pragas, anunciado pela declaração “Para que saibas que não há ninguém como EU, em toda a Terra” (9:14), foi demonstrar o infinito poder de D’us. Um outro propósito para a ação Divina é revelado por Moshé, quando informa ao Faraó que, apesar de merecer morrer, sua vida fora poupada para que ele reconhecesse a grandeza de D’us Único e Verdadeiro. “Para que MEU NOME seja anunciado em toda a terra” (9:16), afirma D’us. E para que fosse transmitido, de geração em geração, o relato do que estava ocorrendo no Egito, ou seja, a manifestação explícita de SUA Vontade.

Na sétima, uma violenta tempestade de granizo assola o país. O mundo nunca vira algo igual. Muito menos o Egito, onde, devido à escassez de chuva, este fenômeno meteorológico era desconhecido. Havia um aspecto sobrenatural nesta praga: o granizo vinha acompanhado de fogo. Dois elementos opostos – o fogo e a água – conciliados a fim de mostrar a Onipotência Divina. Antes da sétima praga, D’us alertou os egípcios para procurarem abrigo durante a chuva de granizo, pois, nenhum ser vivo e nenhum vegetal escapariam incólumes. E os que acreditaram nas palavras de Moshé procuraram abrigo, tanto para si como para seu gado.

Na oitava praga, um vento do leste trouxe em seu bojo nuvens de gafanhotos, que escureceram os céus. Os insetos devoraram cada folha verde que, porventura, sobrevivera ao granizo e às pragas anteriores. Invadiram os lares e os campos egípcios e trouxeram ruína total ao país, já praticamente destruído pelas catástrofes anteriores. Pela primeira vez, o Faraó reconhece seus erros, mas ainda permaneceu firme na determinação de não deixar partirem os judeus.

Quando a nona praga se abateu sobre o Egito, uma “escuridão tangível”, impenetrável, tão densa que apagava qualquer luz, envolveu o país por seis dias. Mais uma vez, um fenômeno natural – a escuridão – se manifestou de forma sobrenatural, pois enquanto nos lares egípcios não era possível acender uma luz, nos lares judaicos, havia luz abundante. Os egípcios, tomados de pavor, permaneceram imóveis onde se encontravam. Ao descrever a praga, a Torá menciona “escuridão e trevas”: escuridão no sentido físico e trevas no sentido espiritual. A Torá nos ensina que esta praga refletia o egoísmo prevalente no Egito: “Não via nenhum homem a seu irmão”, pois cada egípcio via somente a si próprio; assim aconteceu durante a praga da escuridão, ninguém se mexeu para socorrer o outro, pois a ajuda mútua não fazia parte de sua visão de mundo.

A décima praga: a morte dos primogênitos egípcios

A décima e última praga é amplamente anunciada por Moshé, que alerta o Faraó que, por volta da meia-noite, D’us, ELE PRÓPRIO, passaria sobre o Egito e golpearia todos os primogênitos – filhos de homens ou de animais.

Era o clímax de todas as anteriores. Seu aspecto de punição é imensamente mais severo do que o das outras, cujo principal objetivo era incutir nos egípcios a fé em D’us. Durante esta praga, D’us, JUIZ Supremo, executou o castigo, “medida por medida”, pelo decreto de extermínio que o Egito lançara contra o Povo Judeu. O Faraó, que emitira a ordem de que todo menino judeu fosse afogado no Nilo, e os egípcios, que a haviam executado, presenciaram a morte de seus primogênitos na noite que antecedeu o Êxodo. À meia-noite, todos os primogênitos egípcios faleceram a um só tempo. (As únicas exceções foram o Faraó, ele próprio um primogênito, e sua filha Batiá, sua primogênita, que salvou Moshé do édito infanticida de seu próprio pai.

Veja

https://a-fe-original–noaismo.info/2018/03/01/os-nomes-de-moises-batia/  .) D’us poupou-lhe a vida porque, às margens do Mar de Juncos, no episódio da abertura do mar, ele ainda iria testemunhar, uma vez mais, o ilimitado poder de D’us. (Em A Prova da Existência de D’us, Parte 5. Link abaixo.)

Naquela fatídica noite nenhum judeu faleceu; D’us postergou até mesmo a morte dos que haviam terminado seu tempo na Terra. Demonstrava assim, mais uma vez, a clara distinção entre os oprimidos e os opressores. Naquela noite, os Filhos de Israel vivenciaram uma nova dimensão da Justiça Divina e tiveram a certeza que D’us MISERICORDIOSO os libertara da escravidão.

Uma dimensão mística das Dez Pragas

A Cabalá revela que a alma humana é composta de dez pontos de energia – dez características – que correspondem aos dez fluxos de Energia Divina, denominados de Sefirot, na Cabalá. Ao ser humano foi dado o livre arbítrio, a opção de utilizar estas características tanto para o bem quanto para o mal.

O antigo Egito – sociedade baseada na idolatria, imoralidade e total falta de respeito pela vida e dignidade humana – representa a corrupção de cada uma das Dez Sefirot. Por este motivo, foram dez as pragas que atingiram o país. As calamidades foram fruto inevitável da crueldade egípcia, consequências espirituais que se manifestaram fisicamente. Por outro lado, ensina a Cabalá, os Dez Mandamentos, outorgados 50 dias após o Êxodo do Egito, no Monte Sinai, são o “antídoto” das Dez Pragas. Pois se as Pragas refletiram a perversão dos dez atributos da alma humana, os Dez Mandamentos refletem sua retificação espiritual.

O relato das Dez Pragas é fonte de inúmeras lições espirituais. A principal é que a corrupção espiritual, a maldade e a injustiça criam entidades espirituais negativas que acabam voltando-se contra seu próprio criador. Em contraponto, os Dez Mandamentos nos revelam que a ligação com D’us, a bondade e a justiça são o caminho para que a alma humana se manifeste em toda a sua harmonia e esplendor, canalizando bênçãos naturais e sobrenaturais para este nosso mundo físico.

 

Bibliografia

· Hagadá de Pêssach, com comentários do Talmud e literatura rabínica, Fundação J. Safra, 2007

· The Call of the Torah – Shemot, Rabbi Elie Munk, Artscroll Mesorah Series.

· The Sepharadic Heritage Haggadah, The Sutton Edition, Rabinos Elie Mansur, David Sutton e Hillel Yarmove, Art Scroll Sepharadic Mesorah Series, 2006

 

 

Para A Prova da Existência de D’us, Parte 5, veja

· O Milagre da Abertura do Mar

A Prova da Existência de D’us, Parte 5

 

A Prova da Existência de D’us, Parte 5

 

O Milagre da Abertura do Mar

No sétimo dia de sua saída do Egito, o Povo de Israel, perseguido pelo exército egípcio, presenciou um dos mais espetaculares milagres registrados na Torá: a abertura do mar. Até os dias de hoje, o evento é símbolo da Graça Divina e salvação para judeus e não-judeus.


 

Os acontecimentos que antecederam e se seguiram ao Keriat Yam Suf – a abertura do Mar de Juncos – popularmente traduzido como “abertura do Mar Vermelho”, estão sucintamente relatados na Torá, no livro Êxodo. O Talmud, o Midrash, os textos místicos e inúmeros comentários de nossos sábios revelam fatos, explicações e lições marcantes sobre esse milagre.

Conta-nos a Torá que os israelitas, liderados por Moshé, deixaram o Egito no dia 15 de Nissan, iniciando sua viagem em direção ao Monte Sinai. Durante o dia, D’us fazia uso de uma coluna de nuvem para guiar SEU povo. De noite, era uma coluna de fogo que, além de prover luz aos israelitas, direcionava-os de modo a poderem seguir viagem mesmo após o pôr-do-sol.

De repente, D’us ordena a Moisés: “Fala aos Filhos de Israel, e voltem e acampem diante de Pi-Achirot, entre Migdol e o mar, diante de Baal Tzefon, frente deles acampareis, perto do mar” (Êxodo, 14:1-2). As ordens Divinas parecem estranhas. Após três dias de viagem, D’us ordena que os israelitas retrocedam e acampem em frente a Baal Tzefon, o único ídolo egípcio que não havia sido destruído durante as Dez Pragas. Explicam nossos sábios que D’us deu esta ordem para que o Faraó pensasse que os judeus estavam perdidos e confusos e, mais ainda, que a “força” do ídolo egípcio era tamanha que os teria forçado a retroceder.

Apenas três dias após o Êxodo, o Faraó se arrependeu de ter permitido a saída dos israelitas de seu país e decide sair em busca deles, para os capturar e trazer de volta, obviamente como escravos. Faraó, desejando servir de exemplo e inspiração para seus soldados, “arreia sua própria carruagem” e se posiciona à frente das tropas, liderando o exército egípcio na perseguição aos israelitas. Relata a Torá que D’us provocou o arrependimento do Faraó; foi ELE que “endureceu o coração” do tirano egípcio.

Há uma explicação para o fato de D’us ter influenciado o livre arbítrio dos egípcios: tinha sido o Faraó quem ordenara aos egípcios que afogassem os meninos hebreus recém-nascidos nas águas do rio Nilo. A Justiça Divina determinara que, mesmo tendo sofrido as Dez Pragas, os egípcios ainda teriam que pagar “medida por medida” pela crueldade que haviam cometido contra Israel.

A Torá nos relata que os Filhos de Israel saíram do Egito de “cabeça erguida”. O Rabi Ovadia Sforno, famoso comentarista, escreve que foi o sentimento de triunfo de nosso povo o que convenceu o Faraó de que eles seriam presa fácil. Ele acreditava que os israelitas estavam confiantes demais e que a ingenuidade dos ex-escravos facilitaria sua captura. Em seu modo de pensar, apesar de serem um grande contingente, jamais conseguiriam derrotar o poderoso exército egípcio.

Suas tropas alcançam o povo de Israel enquanto este acampava frente ao mar. Os judeus viram marchar em direção a eles um exército forte, unido e extremamente bem-organizado, o mais poderoso da época. Naturalmente, amedrontaram-se: de um lado estava o mar, do outro, um inimigo impiedoso. Não podendo nem avançar nem recuar, só lhes restava uma opção: clamar pela Misericórdia Divina. Mas, ao ver os egípcios se aproximarem cada vez mais, os israelitas supõem que suas preces não estavam sendo atendidas. “Não teria sido melhor viver como escravos no Egito do que morrer aqui, no deserto?” perguntam a Moshé. Em pânico, o povo começa a recriminar seu líder.

O Rabi Chaim Benatar, o Or HaChaim HaKadosh, justifica o temor dos israelitas. Explica que enquanto nosso povo se encontrava encurralado, havia visto não apenas um poderoso inimigo físico, mas [profeticamente] também um adversário espiritual: o anjo da guarda do Egito que se posicionara ao lado do Faraó. Esta visão fez os israelitas pensarem que, quiçá, D’us os tivesse abandonado. Mas, na verdade, explica o Or HaChaim, o anjo servia um propósito positivo: o temor que inspirava levou Israel a se aproximar ainda mais de D’us. Além disso, o Todo Poderoso queria que seus filhos diletos presenciassem a derrota do anjo da guarda egípcio, que seria aniquilado junto com as tropas egípcias. Isto serviria como símbolo de que o Egito não mais aterrorizaria o povo judeu.

Tentando decidir o que fazer, os israelitas se dividem em quatro grupos. Um deles sugere se render ao exército inimigo e retornar, como escravos, ao Egito. O segundo grupo decide se atirar ao mar e morrer. O terceiro se dispõe a lutar até a morte. E o quarto grupo decide rezar. Moshé exorta os filhos de Israel a não terem medo. Em resposta ao pânico generalizado, diz: “Não tenham medo. Fiquem firmes e verão o que HaVaYaH fará para salvá-los, hoje. Vocês podem ver os egípcios hoje, mas não voltarão a vê-los nunca mais. HaVaYaH lutará por vocês e vocês se calarão” (Êxodo, 14:13-14).

É Moisés quem então começa a orar a D’us. E HaVaYaH, surpreendentemente, lhe responde que não era hora de rezar, mas sim de seguir em frente, apesar do mar. HaVaYaH exclama: “Por que clamas a Mim?” E dá a seguinte ordem a Moisés: “Fala aos filhos de Israel que marchem! E quanto a ti, levanta o teu cajado e estende tua mão sobre o mar. Tu dividirás o mar, e os israelitas poderão cruzar sobre ele em terra seca” (Êxodo, 14:15-16). Ensina Ráshi que, nessa hora, D’us disse a Moshé: “Por que clamas como se o destino de Israel dependesse de ti? A MIM cabe a responsabilidade de salvar MEU Povo; portanto, manda-os caminhar e EU cuidarei de sua segurança”.

Segundo o Or HaChaim, esta passagem nos leva a uma pergunta fundamental: quando alguém está em perigo, não é a oração sempre a resposta certa? Por que, então, teriam os judeus recebido a ordem de não rezar naquele momento tão crucial? O sábio responde que, assim como os egípcios, também os israelitas haviam adorado ídolos durante sua permanência no Egito. Portanto, perante a Justiça Divina, Israel não tinha méritos suficientes para ser salvo. Por isso, orar por si só não seria o suficiente. Por esse motivo D’us ordenou que o povo andasse em direção ao mar, demonstrando assim sua absoluta confiança NELE. Esta demonstração de fé serviria como mérito para que o mar se abrisse.

D’us também revela a Moshé que ELE iria punir os egípcios por terem atirado os meninos hebreus às águas do Nilo. Disse D’us a Moisés: “EU endurecerei o coração dos egípcios, e eles te seguirão. Assim EU triunfarei sobre o Faraó e todo o seu exército, suas carruagens e cavalaria” (Êxodo, 14:17).

De repente, a coluna de nuvem que andava diante dos filhos de Israel – a Torá se refere a esta como sendo um anjo já que agia como emissário de D’us – desloca-se para trás do acampamento israelita. Todas as outras noites, a coluna era substituída por outra de fogo. Mas naquela noite a nuvem colocou-se entre os israelitas e os egípcios, com um duplo propósito: impediu que os egípcios se beneficiassem da luz do pilar de fogo que iluminava o acampamento de Israel e serviu como escudo para os israelitas, protegendo-os das pedras e flechas lançadas pelos atacantes.

Seguindo a ordem Divina, Moshé estende sua mão sobre o mar… mas as águas não se abrem. D’us esperava que primeiro os israelitas demonstrassem confiança NELE antes de realizar o grande milagre. Foi Nachshon ben Aminadav, posteriormente líder da tribo de Yehudá, que entrou no mar e caminhou até as águas lhe chegarem à altura do pescoço. Acreditando que D’us os salvaria, confiando num milagre que é difícil até de se conceber, ele continuou com fé e bravura a caminhar pelas águas do mar, mesmo quando estava para se afogar. Só então o mar começou a se abrir.

Durante toda a noite, D’us abriu as águas com um poderoso vento leste, transformando o leito do mar em terra seca. Apesar de Moshé ter estendido sua mão sobre o mar, foi D’us, ELE MESMO, QUEM, por meio de um forte vento, dividiu as águas. Rabi Moshe ben Nachman, Nachmânides, grande sábio e místico, explica que D’us realizou o milagre através do vento – um fenômeno da natureza – e não de uma outra forma explicitamente sobrenatural. Nachmânides explica que D’us assim procedeu porque quis que os egípcios ainda tivessem dúvida sobre o que causara a divisão das águas. Estes insistiam em acreditar que o mar fora, coincidentemente, aberto pelo vento, e não pelo D’us de Israel. Isto os fez perseguir os israelitas, entrando atrás deles mar adentro, com seus cavalos e carruagens.

No início da alvorada, D’us lançou relâmpagos e fortes chuvas contra as tropas egípcias. Fez também se desprenderem as rodas de suas carruagens. Só então os egípcios perceberam o que realmente acontecia e gritaram: “Fujamos de Israel! HaVaYaH luta por eles contra o Egito!” Mas era tarde demais. Diz HaVaYaH novamente a Moisés: “Estende tua mão sobre o mar. As águas voltarão sobre os egípcios, cobrindo suas carruagens e cavaleiros” (Êxodo, 14:26). De manhã, quando os israelitas estavam salvos, Moshé estendeu sua mão e as águas voltaram, afogando todos os egípcios que se tinham aventurado pelo mar.

Ao testemunhar um milagre que salvara os oprimidos e punira os opressores, os Filhos de Israel vivenciaram uma nova dimensão do Amor e da Justiça Divina. Os egípcios foram punidos da mesma maneira pela qual tentaram aniquilar o povo judeu – morreram afogados. Na tradição judaica, a morte, ainda que do inimigo, não pode ser comemorada. Portanto, a razão para que os israelitas testemunhassem o fim do exército egípcio foi para ter a certeza de que nenhum egípcio se salvara. Desta forma, futuramente, esse povo não poderia tentar capturar, novamente, o Povo de Israel.

O dia de sua travessia pelo mar, 21 de Nissan, foi quando os israelitas deixaram de ser escravos para sempre. Até então, apesar das Dez Pragas, ainda se sentiam como tal. Após a “abertura do mar”, o povo de Israel finalmente se tornou um povo livre. Estava pronto a seguir em direção ao Sinai onde sua libertação física subiria um outro degrau, atingindo uma dimensão espiritual ímpar.

Ensinam nossos Sábios que durante a “abertura do Mar de Juncos”, os Filhos de Israel presenciaram uma extraordinária Revelação: a natureza da existência de D’us: SUA Onisciência, Onipresença e Onipotência tornaram-se fatos palpáveis, claros como o dia. O Midrash relata que até as crianças cantaram, ESTE é meu D’us e eu O glorifico”. Revela o Talmud que com aquele grandioso acontecimento, todo o Povo de Israel se tornou uma nação de profetas. Mesmo o mais simples dentre eles testemunhou revelações maiores do que as vivenciadas por Ezequiel, o profeta cujas visões se tornaram um dos alicerces do estudo da Cabalá.

A respeito de milagres

Ao descrever a “abertura do Mar de Juncos”, a Torá descreve um único milagre: a divisão das águas. Em contraposição, é no âmbito do Talmud, Midrash, Cabalá e de todos os comentários de nossos sábios que podemos analisar e procurar entender, em pormenores, o milagroso acontecimento. O Midrash nos conta que na “abertura do mar”, D’us realizou não um, mas dez milagres para os Filhos de Israel. Um deles foi o mar se abrir em 12 caminhos, um para cada tribo. Outro milagre foi o leito do mar ter-se secado para que os israelitas pudessem caminhar, mas ter voltado a ser lama quando surgiram os egípcios. O Midrash também relata que uma fonte de água doce e potável surgiu no meio do mar salgado e que árvores de frutos lá cresceram para que os israelitas tivessem com o que se alimentar.

É interessante notar que os israelitas entraram e saíram pela mesma margem ocidental do Mar de Juncos. Ou seja, como afirma o Talmud, a abertura das águas aconteceu em semicírculo. O Povo de Israel não atravessou o mar de um lado para outro, como se costuma pensar. O milagre, portanto, não ocorreu para que eles pudessem chegar até o Monte Sinai; havia outros caminhos. O milagre da “abertura do mar” – da salvação dos israelitas e da morte dos egípcios – ocorreu para que fosse executada a Justiça Divina e para que Israel visse o Amor de D’us por SEU povo. É claro que, além disso, o episódio serve de lição para a humanidade de que D’us controla as forças da natureza, que não passam de joguete diante d’AQUELE que as criou.

A palavra hebraica para milagre, “ness”, pode significar também estandarte ou bandeira. Um estandarte é posto em um lugar alto para que todos o possam ver. O milagre tem um propósito similar, sem ser físico, porém espiritual. Eleva a percepção humana a uma nova dimensão. Faz-nos lembrar que D’us está acima de nós, que é Onisciente, Onipresente e Onipotente e que é ELE QUEM rege todo o universo.

O milagre da “abertura do mar” se realizou através de um acontecimento natural: um poderoso vento leste soprou sobre as águas, durante toda a noite. E, como vimos anteriormente, o exército egípcio estava convencido de que a repartição do mar tinha sido obra do vento – e não do D’us de Israel. De fato, todos os milagres que ocorreram no Egito foram originários da própria natureza; talvez tenha sido por essa razão que os egípcios perseguiram os judeus, mesmo tendo sofrido as Dez Pragas. As legiões do Faraó só se conscientizaram que era D’us QUEM agia quando tudo já estava perdido.

Ao longo da história e ainda nos dias de hoje, há muitos que pensam como os egípcios. Muitos têm tentado descobrir a “verdade” científica por trás da “abertura do mar”. Alguns concordam que as águas realmente se abriram, mas o atribuem a uma coincidência de fenômenos naturais, não a um milagre Divino. São muitas as especulações sobre que fenômenos naturais, próprios da região, poderiam ter provocado o extraordinário acontecimento.

Mas, para todos aqueles que acreditam que a Torá é de autoria Divina, são claras a história e as lições contidas nesse grandioso evento. D’us é Infinito e Onipotente e certamente tem o poder de controlar a natureza. Nada é impossível diante d’ELE. Segundo Rabi Maimônides, quando D’us criou o Universo com suas leis e propriedades físicas, criou também a possibilidade de acontecerem eventos extremamente improváveis. É o que chamamos de “milagre”. Segundo os textos místicos, na hora da Criação, D’us impôs à natureza certas pré-condições. Uma destas foi a abertura do Mar de Juncos aos judeus no dia em que estes estivessem fugindo do exército egípcio.

Certa vez, o Baal Shem Tov foi questionado sobre a “abertura do mar”. Quem o abordou dizia acreditar que a repartição das águas era, de fato, um acontecimento raro e improvável, mas não milagroso. O mestre chassídico rebateu com uma resposta que vale para todos aqueles que questionam a origem Divina na abertura do Mar de Juncos. Disse o Baal Shem Tov que o maior dos milagres não foi simplesmente o fato de as águas se abrirem, e sim, o de ter esse fenômeno ocorrido justamente quando os judeus precisavam atravessar aquele mar para se salvar (Torat Shlomoh, vol. 14, pág. 342 ).

Este ensinamento do Baal Shem Tov é um dos princípios básicos da Cabalá – de que todos os eventos no mundo, rotineiros ou extremamente improváveis, do sol que nasce a cada dia à “abertura do Mar de Juncos”, são originários da mesma FONTE SUPREMA e INFINITA.

 

Bibliografia

· The Chumash – The Stone Edition – Rabbi Nosson Scherman – Artscroll Series

· Torá Viva – Anotado por Rabbi Aryeh Kaplan. Tradução: Adolfo Wasserman. Editora Maayanot

· Torá: A Lei de Moisés. Tradução: Rabino Meir Matzliah Melamed. Editora Sêfer.

· The Call of the Torah – Shemos. Rabbi Elie Munk. Artscroll Mesorah Series.

 

 

Para A Prova da Existência de D’us, Parte 6, veja

· MONTE SINAI: O ENCONTRO ENTRE D’US E ISRAEL

A Prova da Existência de D’us, Parte 6

 

A Prova da Existência de D’us, Parte 6

 

MONTE SINAI: O ENCONTRO ENTRE D’US E ISRAEL

No terceiro mês de saírem os Filhos de Israel da terra do Egito, neste dia chegaram ao deserto do Sinai, e acamparam no deserto, e acampou ali Israel em frente ao monte (Êxodo 19:1-2).


 

Sete semanas após terem sido libertados do jugo do Faraó e da escravidão egípcia, o povo de Israel, liderado por Moshé, que agia sob instruções Divinas, acampa ao pé do Monte Sinai para seu tão esperado encontro com D’us.

Os Filhos de Israel sabiam que o Todo Poderoso prometera a Moshé que no terceiro mês do Êxodo do Egito, ELE SE revelaria a eles na montanha. Mas para merecer tal Revelação, o povo precisava estar espiritualmente preparado, pois, ao sair do Egito, os israelitas encontravam-se num nível muito baixo de espiritualidade. Os judeus vagaram durante sete semanas no deserto para se purificar espiritual e mentalmente. Foi apenas ao chegar ao Monte Sinai, 49 dias após a saída do Egito, que cada um deles atingiu o nível de espiritualidade imprescindível para presenciar a Revelação Divina. A contagem do Ômer vem simbolizar esta ascensão do povo judeu durante estes 49 dias.

Havia, porém, uma outra condição necessária para que os Bnei Israel pudessem receber a Torá: devia reinar entre todo o povo harmonia, paz e união absoluta. Desde a libertação do Egito, havia constantes descontentamentos e desentendimentos entre eles. Mas, ao chegar ao Monte Sinai, os judeus demonstravam fé e confiança absoluta em D’us. Reinava entre Israel a paz mais profunda, como se o povo inteiro fosse um único homem, com uma única voz. Rashí afirma que Israel acampou ao pé do Monte Sinai como um só homem, com um só coração.

A Torá relata: E acampou ali Israel frente ao monte (Êxodo 19:2), indicando-nos que todo o povo formava uma só unidade. Afirmam nossos sábios que foi ao comprovar esta unidade que D’us considerou Israel merecedor de receber SUA Palavra e de se tornar o SEU povo.

O encontro dos Céus com a terra, no Monte Sinai, foi o mais importante evento na história judaica e ocorreu por um único motivo: a outorga da Torá aos Filhos de Israel. Pela primeira e única vez na história da humanidade, D’us SE revela perante todo um povo e o incumbe de uma missão: cumprir SUAS Leis e disseminar ao mundo a SUA Palavra.

A Revelação no Monte Sinai 

A Torá conta que a Revelação de D’us diante do povo judeu foi um evento dramático e estarrecedor, anunciado por relâmpagos e trovões. Toques de Shofár ressoavam enquanto uma nuvem pesada de fumaça cobria o monte. Está no livro Êxodo: O Monte Sinai estava todo em fumaça por causa da Presença que tinha descido sobre ele (19:18).

Revela o Midrash que “quando o Santo, Bendito Seja, ofereceu a Torá no Sinai, ave alguma piou nem vôo levantou; boi algum mugiu; anjo algum ascendeu aos Céus e não se ouviu serafim proclamar louvores a D’us. Absoluto silêncio reinava no universo. Foi então que a Voz adiantou-se, proclamando: ‘EU sou HaVaYaH, teu D’us…’ (Shemot Rabá 29:9).

Como D’us não é físico ou matéria (apesar de que também não é espírito*), o povo judeu não pôde vê-LO, mas apenas ouvir SUA voz enquanto anunciava os Dez Mandamentos. Os místicos revelam que estes correspondem às Dez Proclamações com as quais D’us criou o universo. Portanto, a Revelação do Sinai corresponde a uma nova Criação, um novo mundo regido por Leis Divinas, transmitidas a todo um povo com a missão de cumpri-las e transmiti-las ao restante da humanidade. De fato, a libertação dos judeus do Egito e todos os milagres realizados por D’us durante o Êxodo foram meros prelúdios para a Revelação. Nossos sábios explicam que o propósito da Criação foi alcançado quando Israel – homens, mulheres e crianças – ouviram o Todo Poderoso proclamar os Dez Mandamentos e se comprometeram a seguir a Torá. Ensinam os místicos que não estavam presentes apenas os judeus que foram libertados do Egito, mas sim, todas as almas judias. Mesmo as que ainda estavam por nascer estavam presentes durante a Revelação Divina. O elo entre D’us e o Povo Judeu é eterno, pois foi selado com todas as gerações judaicas subseqüentes.

(* D’us criou o “mundo” espiritual, a “natureza” espiritual, os “seres” espirituais, portanto, assim como “ELE” está além do físico, da matéria, “ELE” também está além do espírito.)

 

Finalmente, após as Leis terem sido anunciadas, todo Israel responde em uníssono e com um único pulsar de coração: Faremos e ouviremos, Naassê Venishmá! (Êxodo 24:7). Com estas palavras, o povo de Israel expressa sua prontidão para servir D’us, por livre escolha e com devoção absoluta. Prometem adotar incondicionalmente as Leis Divinas como base de toda sua existência e selam um pacto eterno com HaVaYaH. Por ter-se comprometido a seguir todos os mandamentos de D’us mesmo antes de entender o significado e propósito de cada um deles, Israel, naquele instante, ascende espiritualmente ao nível dos anjos.
No entanto, a Revelação Divina foi uma experiência muito avassaladora. Após HaVaYaH proclamar os Dez Mandamentos que formam o núcleo dos 613 mandamentos da Torá, o povo pede a Moshé que ele, e não D’us, lhes transmitisse e ensinasse os demais preceitos Divinos: Fala-nos tu e te ouviremos; porém não fale D’us conosco que morreremos (Êxodo, 20:19). E assim D’us chamou Moshé para que ele subisse o Monte Sinai, onde permaneceria 40 dias e 40 noites para d’ELE aprender toda a Torá e seus detalhamentos. E a Moshé caberia transmitir ao povo seus meandros e pormenores.

A formação da Nação Judaica

Após a Revelação Divina no Monte Sinai, as Doze Tribos de Israel se tornam a Nação Judaica, um povo definido por um código de leis morais e espirituais ditadas por D’us. As leis promulgadas por HaVaYaH fundamentam a responsabilidade do homem perante outros homens e SEU CRIADOR. São leis espirituais que uma vez trazidas à Terra, assumiram forma física e cotidiana. Sua moral e ética transcendem o tempo e o espaço e mudam para sempre os caminhos não apenas do povo de Israel, mas de toda humanidade. 

A formação do povo judeu, em consequência da outorga da Torá, difere totalmente de como outros grupos de indivíduos se tornaram uma nação. Teriam todos os franceses, por exemplo, decidido, num determinado dia e ao mesmo tempo, tornar-se franceses? Acreditar na legalidade de ter um rei a governar seu país, a França, ou optar pelos ideais da Revolução Francesa? Certamente que não! Essa transformação foi um processo longo e trabalhoso e, por vezes, sangrento, marcado por lutas internas e externas. Assim como com todas as outras nações, tal processo envolveu habitantes de uma determinada área geográfica, que lá viveram por longo tempo, durante o qual desenvolveram idioma e cultura comuns, calcados em uma experiência histórica compartilhada. Até que acabaram por definir o que consideravam suas fronteiras, desenvolvendo uma entidade política, com um governo e um nome nacional, no caso, França. Suas leis mudaram inúmeras vezes antes e depois de completar o processo de auto-definição como cidadãos franceses. 

No caso do povo de Israel, o embrião desse processo nacional criou corpo quando estavam apartados da terra de seus ancestrais, subjugados pela escravidão e sujeitos às mais adversas condições criadas justamente para anular sua identidade histórica e cultural. E é concluído quando, reunidos aos pés do Monte Sinai, afirmaram a D’us, Naassê Venishmá. Pois, ao prometer seguir os mandamentos da Lei Divina, eles se tornam a Nação Judaica. 

A Torá atesta que nunca antes e nunca mais após aquele evento D’us SE revelaria a outro povo. De fato, todos os outros (fictícios) relatos existentes sobre algum tipo de Revelação Divina referem-se a experiências de um indivíduo ou de um pequeno grupo. Outros códigos de leis, inclusive as de Noé – as Sete Leis de Noé (as Mitsvót Universais) -, nunca foram abertamente declarados por D’us diante de todo um povo (e sim diante de uma família). As leis originadas ou transmitidas unicamente por seres humanos, mesmo as semelhantes aos mandamentos da Torá, estão sujeitas a mudanças. Mas as Leis promulgadas pelo Todo Poderoso são absolutas. Como A FONTE que as origina é Infinita, Imutável e Perfeita, também o são SUAS Leis. Nenhum ser humano pode mudá-las, nem tampouco as mesmas deixam de existir com o passar do tempo.

O rabi Adin Steinsaltz escreve que a importância dos Dez Mandamentos não é tanto o seu conteúdo, mas a sua Origem. Tanto os Mandamentos quanto todos os preceitos da Torá foram promulgados por D’us e é isto o que lhes confere força e significado. Os judeus seguem a Palavra Divina, a Torá, não pelos milagres ocorridos ou outros fenômenos sobrenaturais, mas porque o povo de Israel estava presente no Sinai quando D’us SE pronunciou diante deles e SUA mensagem continua, até hoje, a ser transmitida de pai para filho. A história da sobrevivência do povo judeu é a própria história do processo ininterrupto de transmissão da Torá de uma geração a outra, através dos séculos. 

Desde o recebimento da Lei Divina, os judeus têm um relacionamento específico com D’us que não se limita apenas a religiosidade e espiritualidade. É, na verdade, uma visão que abarca tudo e que nos orienta como viver cada minuto de nossa vida, e esta relação é única. Ser judeu é ser parte de uma nação que tem uma missão frente ao mundo. A identidade nacional judaica foi forjada pela vivência no Monte Sinai, pois lá nos comprometemos com essa missão como indivíduos e como nação. E para cumpri-la, temos a Torá que recebemos. Assim como Abraão declarou, muitas gerações antes… ‘Escolhi viver e, se necessário for, morrer pela realidade Divina’, também seus descendentes, no Sinai, se comprometeram a fazê-lo.

E nós, neste século, continuamos a honrar o compromisso de nossos antepassados.

 

Bibliografia:

• The Call of the Torah – An anthology of interpretations and commentaries on the Five Books of Moses, Rabbi Elie Munk, ArtScroll Mesorah Series.


 

 

Os eventos ocorridos há milhares de anos ao pé do Monte Sinai são celebrados a cada Festa de Shavuót. Esta festividade, que é comemorada durante dois dias, começa no sexto dia do mê de Sivan do calendário hebraico. Ocorre 50 dias após o primeiro dia de Pêssach, que marca o êxodo do povo judeu do Egito.

Em Shavuót há o costume de ficar acordado toda a noite estudando a Torá. A Cabalá enfatiza a importância desse ritual chamado de Tikun Leil Shavuót. No dia seguinte, o primeiro dia de Shavuót, em todas as sinagogas ao redor do mundo, os Dez Mandamentos são lidos perante a Congregação.
As sinagogas costumam ser decoradas com flores porque na hora da Revelação, no Monte Sinai, uma montanha seca e árida, explodiu em flores. Alimentos feitos de leite e queijo são característicos desta festa.

 

Para A Prova da Existência de D’us, Parte 7, veja

· A Unicidade de D-us

A Prova da Existência de D’us, Parte 7

 

A Prova da Existência de D’us, Parte 7

 

A Unicidade de D’us

“E saberás hoje e considerarás no teu coração, que HaVaYaH, ELE é D’us (O D’us), em cima, nos céus, e embaixo, na terra; não há nada além DELE”. (Deuteronômio, 4: 39).

 

O estudo sobre D’us e SUA Unicidade constitui a matriz do judaísmo. É a essência da Cabalá, que, por sua vez, é a alma da Torá e o portão de entrada a um entendimento mais profundo da lei e filosofia judaica, sua crença e prática.

Nosso propósito, nesta análise, é fornecer uma introdução e um convite a aprofundar o estudo de um tema sem fim e, por vezes, paradoxal, e as idéias abaixo apresentadas baseiam-se na Cabalá de Rabi Itzhak Luria, o Arizal, e nos ensinamentos do Rabi Shneur Zalman de Liadi, o Baal HaTanya, autor do Tánya.

Adentramos no estudo sobre D’us e SUA Unicidade com a consciência de que somos meras criaturas finitas e falíveis tentando discutir O INFINITO. O pouco que conhecemos acerca de D’us se deve ao fato de sermos, em parte, a SUA Essência. Falar de D’us é falar de um AQUILO indefinível e incompreensível, que está além de qualquer medida ou definição. Comparado a D’us, que transcende a sabedoria e o conhecimento, até o mais sábio dos homens nada mais é do que um tolo. E, portanto, qualquer exemplo, metáfora ou analogia que tente entender D’us é, inevitavelmente, imprecisa. Na melhor das hipóteses, pode-se pretender alcançar um pingo da verdade.

Um corolário disso é o fato de D’us ser absolutamente singular. Nada nem ninguém a ELE se pode comparar. Há uma linha muito bem definida que O distingue de toda a Sua criação. Temos que ter isto sempre presente em nossa mente, pois, como veremos adiante, apesar de ser o mundo todo divino, O CRIADOR e a criação não representam uma unidade. Nos livros sagrados, inclusive na Hagadá de Pêssach, D’us é, às vezes, chamado de HaMakom – O Lugar. A razão para este nome, como ensina o Midrash, é que D’us é O Lugar do mundo, mas o mundo não é o Seu Lugar. Isto significa que a criação reside dentro dO CRIADOR, mas D’us não é definido nem dependente do mundo, em instância alguma. Nem ELE nem o SEU NOME podem ser associados a ser algum, vivo ou inanimado; pois isto equivaleria à idolatria. D’us não pode ser confundido com SEUS Atributos – as Sefirot. ELE não é a Natureza, nem tampouco alguma forma de anjo ou ser humano onipotente. (Na verdade, D’us não é físico, mas também não é espírito.) Até o mais espiritual dos homens, o maior dos sábios, o mais poderoso milagreiro – mesmo Moshé ou o Mashíach, seja este último quem for – são, nas palavras do Tanya, “ingênuos diante de SUA abençoada Presença”. Até mesmo um verdadeiro Tzadík, que tem condições de reverter os decretos divinos, nada mais é do que um instrumento de D’us – um canal através do qual flui a misericórdia e a plenitude Divina.

Judaísmo é monoteísmo puro. É, também, a busca pela Verdade. Para o judeu, a existência e unicidade de D’us não são mera questão de fé – são a base de toda a Realidade. São verdades mais preciosas do que a própria vida.

A contínua criação do mundo

Nós, seres humanos, temos a impressão errônea de que somos criadores. Na verdade, nada criamos; simplesmente moldamos ou transformamos algo em outro algo. Um escultor, por exemplo, não cria sua escultura – ele a modela, com gesso ou outro material. Mesmo um escritor que componha uma história original necessita da matéria física, ou seja, papel e tinta, para gravar seu trabalho. E apenas pelo fato de ter a matéria física, o trabalho do escritor permanece após ser finalizado.

Tudo na criação humana é iniciado a partir de um original. Há uma única exceção, o pensamento. Em nossa mente, temos o poder da imaginação, criando assim coisas ou pessoas ou situações inexistentes anteriormente e sem substância física. As crianças, por exemplo, costumam criar na mente amigos imaginários – chegando, mesmo, a lhes atribuir nomes e com eles “conversar”. Contrastando com outras criações do homem, o pensamento, criado a partir do nada, jamais se torna independente de seu criador. Um conto publicado pode sobreviver a seu autor, mas se um escritor apenas criar o conto em sua imaginação, este deixará de existir no instante em que ele mudar de pensamento. E se ele se esquecer do mesmo, jamais voltando a pensar no assunto, tal história jamais terá existido.

Antes da criação do mundo, não havia nada além de D’us. O CRIADOR não modelou o universo a partir de um original, pré-existente, já que não existia absolutamente nada. Como D’us criou tudo a partir do nada, a criação não pode ser comparada à modelagem de uma estátua ou à escrita de uma conto – que são criados a partir de uma matéria física, mas apenas aos pensamentos da mente humana, criados a partir do nada. Em sua essência, é isto o que é o nosso universo: o conjunto dos pensamentos de D’us.

Falando por metáforas, ELE pensou e tudo se criou. D’us continua a pensar sobre sua criação e esta continua a existir. E como a criação é a mudança do nada em algo, há que haver alguma força que garanta que tudo não volte à forma original de inexistência. Em termos científicos, poder-se-ia dizer que a criação é a força incessante que se opõe à entropia. Para que o mundo continue a existir, D’us precisa continuar com o pensamento no mundo – a dizer, ELE precisa estar constantemente recriando-o, sem parar; de outra forma, tudo reverteria ao nada, onde tudo se originou.

O ato da criação, portanto, não foi um evento único, de uma única vez; é um evento contínuo e incessante. Esta é a razão pela qual todas as manhãs, em nossas orações, louvamos D’us por ser AQUELE “que, em sua bondade, renova dia após dia, continuamente, a obra da criação”. Contudo, como tudo está constantemente sendo criado do nada, o mundo pode, a qualquer momento, reverter ao nada, seu estado inicial. D’us não precisa inundar novamente o mundo para se livrar da humanidade. Basta que ELE pare de pensar no homem. À luz disto, o Talmud ensina que se em um momento qualquer, em algum ponto da Terra, não houver ao menos um judeu estudando a Torá, D’us perderia o interesse na criação e todo o universo súbita e instantaneamente deixaria de existir.

Criação contínua significa que D’us está constantemente pensando em tudo e em todos; nada, portanto, escapando ao SEU escrutínio. A existência de qualquer ser – um micróbio, um ser humano (qualquer humano), um anjo (qualquer anjo – mesmo satan, ou, incluindo satan, ou, principalmente satan) ou uma galáxia – está sob SEU constante domínio. Nada pode existir ou ocorrer sem SUA Presença. Como está escrito na Torá, “pois que ELE é nossa própria vida” (Deuteronômio, 30:20). A criação constante nos ensina que ELE não é apenas QUEM dá a vida, mas ELE é a nossa vida. É fundamental ter isso bem claro para se entender a unicidade de D’us. Há quem acredite que D’us criou o mundo e o afastou de SI; é a teoria filosófica intitulada Deísmo. Outros acreditam que D’us apenas intervém no mundo esporadicamente, através da realização de um milagre. Tais noções – a de que existe um mundo e de que há um D’us e ambos interagem ou não interagem – são falsas. O mundo não é uma realidade absoluta; somente D’us O é. Pois, assim como os pensamentos residem na mente de uma pessoa, o mundo reside em D’us. E é por isso que D’us conhece tudo o que transpira no universo – não porque ELE invade nossa mente e nosso domínio individual – mas porque nós residimos dentro d’ELE. Assim sendo, nada do que pensamos ou fazemos LHE é desconhecido. Afirmar que D’us não percebe ou não SE importa se a pessoa diz a bênção antes de comer ou se a pessoa destina uma doação para caridade, é, no mínimo, uma leviandade.

Na Torá que ELE compôs, D’us descreve SEU ato de criação como um produto de SUA fala, dos Dez Pronunciamentos Divinos. Esta metáfora da fala explica a criação na forma da Revelação Divina. Assim como as palavras de uma pessoa são reveladoras, a “fala” Divina implica que o mundo emanou d’ELE e que a criação realmente aconteceu. Mas tal metáfora tem limitações – como o têm todas as demais usadas para descrever D’us e SEUS Atos – pois quando uma pessoa fala, as palavras emanam de seu íntimo. Há um orador e um discurso. Este, uma vez pronunciado, deixa o domínio do orador, não podendo ser revertido. Mas, em se tratando de D’us, não há nada fora de SEU domínio. Como D’us é Infinito, assim como tudo o que existe dentro d’ELE, SUA fala, contrariamente à do homem, nunca o abandona. Neste sentido, é mais preciso comparar a criação Divina do mundo aos pensamentos de uma pessoa que nunca são exteriorizados. Resumindo, a Criação tem elementos que são comparáveis à fala e ao pensamento do homem. Como a fala, a Criação é uma forma de revelação e expressão; como o pensamento, nunca abandona o domínio de um ser. Isto significa que os Dez Pronunciamentos Divinos resultaram na criação do universo, mas isso não é, de forma alguma, apartado ou independente de D’us.

A Criação, através do ocultamento

A luz de uma vela tem maior significado à noite; mas se torna menos relevante, apesar de não mudar sua luminosidade, em plena luz do dia. E, se de alguma maneira, a vela fosse colocada dentro do sol, sua luz seria imediatamente anulada pela potente luz do sol. A luz de uma vela dentro do sol somente teria relevância se o sol se tornasse escuro. Apenas ocultando a luz do sol, a luz da vela seria perceptível.

Esta analogia ajuda a ilustrar que a Criação, que é finita e reside dentro dO INFINITO, na verdade é anulada dentro de D’us. Esta analogia fica aquém da realidade, pois uma vela, por menor que seja, ainda é uma fração infinitesimal do sol. Comparado com O INFINITO, qualquer número, por maior que seja, é insignificante. Ademais, por definição, O INFINITO não pode ser decomposto em partes, e, portanto, não permite a existência de mais nada. Como discutimos acima, não há espaço fora de D’us; e, como O INFINITO não faz espaço para nada mais, como pode o mundo existir? A Cabalá revela que o mundo foi criado não apenas pela fala Divina, mas pelo Tzimtzum. Comumente traduzido por Divina Constrição, Tzimtzum deve ser entendido como Divino Ocultamento: D’us ocultou SUA Luz Infinita para que o mundo não parecesse estar sendo anulado dentro d’ELE. Nós, portanto, vemos o mundo, mas não vemos D’us.

Referindo-se ao ocultamento de D’us, o Zohar fala de uma “Lâmpada da Escuridão” que oculta a Luz Infinita para fazer crer que a Criação é separada de SEU CRIADOR. Como a presença dO INFINITO e o finito – D’us e o mundo – estão sempre em oposição, sua coexistência é uma contradição. O mundo somente pode existir quando D’us SE esconde. Se a Luz Infinita fosse revelada, instantaneamente Ela consumiria e anularia tudo o que existe.

(Veja

https://a-fe-original–noaismo.info/2016/05/24/o-dus-oculto-o-dus-se-escondendo/  .)

 

A existência do universo envolve dois processos concomitantes: a contínua criação Divina, pois, do contrário, o mundo reverteria ao vazio, ao nada; e o ocultamento de D’us, pois, do contrário, o mundo seria totalmente anulado dentro de SUA Luz Infinita. No entanto, o Tzimtzum apenas explica como podemos perceber o mundo, mas não como o mundo pode coexistir com O INFINITO. O mundo é um produto da Revelação Divina e do Ocultamento Divino. O fator comum a ambos os mecanismos é o Divino, não deixando espaço para nada mais. Como pode um mundo finito ser criado por D’us, oscilando entre a luz e a escuridão? Revelado ou oculto, é tudo ELE. O Baal HaTanya elucida este paradoxo com a seguinte analogia: alguém que fique fora do sol pode diferenciar entre o próprio sol e os raios de luz que emite. Mas, a luz solar dentro do sol é vinculada à sua origem. Dentro do sol, não há distinção entre o sol e a luz solar; há apenas o sol.

De forma similar, como não há nada fora de D’us, o mundo nem pode ser comparado a um raio de sol que, apesar de ser completamente dependente do sol, é reconhecido como uma entidade em si só. Pelo contrário, o universo todo é anulado dentro de D’us assim como o raio de sol o é dentro do sol. Como escreve o Baal HaTanya, este é o significado da verdadeira unicidade de D’us: o fato de que tudo é nada, comparado a ELE, pois tudo é verdadeiramente anulado dentro de SUA Existência.

A unicidade de D’us não significa que não haja outros deuses no mundo. Significa que não há nada além d’ELE. Pois, ainda que nosso mundo realmente exista, assim como a luz existe dentro do sol, esse mundo é completamente anulado dentro de sua ORIGEM: não possui existência independente ou absoluta. O ato de idolatria – quer se adore uma estrela, uma estátua ou um homem qualquer, mesmo um Tzadík – é abandonar tudo pelo nada, pois que apesar de o mundo ser a fala Divina, o mundo não é D’us. Prova disto é que o mundo está constantemente sendo criado do nada e poderia reverter ao vazio do nada – sem efetuar qualquer mudança em D’us. (Veja

https://a-fe-original–noaismo.info/2016/04/30/qual-e-a-prova-logica-que-ha-um-so-dus/  .)

 

Segundo a Cabalá, o ponto de partida da idolatria não é a negação de D’us nem a crença em outros deuses, mas é a assunção de que qualquer coisa seja independente d’ELE. O epítome da idolatria foi personificado pelo Faraó do Egito – o vilão arrogante que afirmou ser um deus, auto-criado. Não é de surpreender que D’us tenha escolhido Moshé, cuja essência é a antítese da idolatria, para enfrentar e vencer o Faraó. Pois Moshé, apesar de ser o maior de todos os profetas, foi também o homem mais humilde que já existiu: ele personificou a verdadeira santidade, que significa a auto-anulação diante do Divino. Pode-se conjeturar que a humildade de Moshé não era simplesmente produto do tipo de pessoa que era, mas também do que ele vivenciou. Chegando tão próximo a D’us, como a nenhum outro ser humano foi dado chegar, ele pôde perceber, melhor do que ninguém, que tudo e todos nada são quando comparados ao CRIADOR. Moshé pergunta, pois, retoricamente: “E que somos nós?” (Êxodo, 16:7). A resposta é que comparados a D’us, nada somos.

O paradoxo da Criação – de como um mundo finito pode existir quando, na verdade, nada existe além de D’us – é transmitida pela seguinte história. Um rabino chassid disse, certa vez, a um filósofo, que “pessoas como você pensam em D’us o tempo todo, enquanto os chassidím apenas pensam em si próprios”. Percebendo um sorriso no rosto do filósofo, o rabino disse, “não o digo como elogio”, explicando a seguir: “Pessoas como você têm certeza de sua própria existência. E, por isso, passam os dias pensando em D’us. ‘Será que ELE existe? E que tipo de D’us é ELE?’ Por outro lado, nós, os chassidím, sabemos que D’us existe. Portanto, passamos o dia pensando se nós próprios existimos. E em como é possível esta nossa existência”.

Corre uma história sobre assunto semelhante acerca de um grande mestre do Chassidismo, Rabi Aharon, de Karlin. Grande líder e erudito, além de poderoso milagreiro, ele foi um dos principais alunos do Maguid de Mezeritch. Certa vez lhe perguntaram o que havia aprendido enquanto estudara em Mezeritch. “Nada”, respondeu. “Nada?”, repetiram, incrédulos. “Nada”, reiterou. “Em Mezeritch, aprendi que nada sou”. Estamos falando de um homem verdadeiramente extraordinário – um Tzadík, um sábio, um fazedor de milagres e maravilhas – cuja sabedoria e conhecimentos apenas o tornavam mais humilde pelo fato de o fazerem constatar que o mundo inteiro é, de fato, anulado diante dO CRIADOR.

No entanto, essa anulação perante D’us não significa que o mundo não exista. Fosse este o caso, não haveria paradoxo algum na Criação. Diferentemente do misticismo oriental, o judaísmo não afirma que o mundo é uma ilusão. O mundo é uma realidade. Se a vida fosse uma ilusão, não haveria diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado, uma mitzvá e um pecado. Se, por exemplo, o alimento que ingerimos fosse uma ilusão dos sentidos, que diferença faria comer matzá ou chamêtz, em Pêssach? Portanto, negar a realidade do universo não soluciona o paradoxo da Criação.

O propósito do ocultamento

Buscando algum sentido para o paradoxo da Criação, tomemos emprestada uma analogia do campo da Física. A olho nu, a matéria parece ser sólida e inerte. Mas um objeto como uma pedra é composto do movimento constante de partículas cuja solidez física é questionável. Os elétrons são pontos concentrados de ondas de energia. Ao mencionar isto, quer-se defender o fato de que mesmo dentro do reino do mundo físico, nem tudo é o que parece. Percebemos apenas os sólidos tangíveis porque nossa percepção é limitada. Contudo, justamente esta falta de percepção é o que nos permite funcionar. Não teríamos condições de viver efetivamente se apenas víssemos partículas atômicas.

Esta analogia nos ajuda a entender que pode haver mais de um nível de percepção. O mesmo é válido para a Realidade, como um todo. Por um lado, tudo no universo é produto da fala Divina. Nada há além de D’us; somente ELE existe e o mundo é anulado dentro d’ELE. Por outro, o mundo não é uma ilusão: matzá é matzá; chamêtz é chamêtz e o ser humano é um ser humano. Quem estuda Cabalá e não consegue aceitar este paradoxo ou perde a razão ou perde a fé. Esta é uma das razões porque o estudo do misticismo judaico foi proscrito durante tanto tempo.

A Cabalá aborda o paradoxo da criação através da revelação de que há dois níveis de unicidade: Unicidade Superior, Yichudá Ila’á, que é a perspectiva dO CRIADOR, e a Unicidade Inferior, Yichudá Tata’á, que é a perspectiva da criação. A Superior significa que, sob a perspectiva Divina, o mundo é totalmente anulado dentro d’ELE, assim como a luz do sol o é dentro do sol. A Unicidade Inferior significa que nós vemos um mundo que aparenta ser separado de seu CRIADOR, assim como alguém que fica fora do sol percebe os raios de luz totalmente dependentes do astro-rei, mas não anulados dentro dele.

Dois níveis de Unicidade Divina significam que o relacionamento entre D’us e o universo não é idêntico nas duas direções. D’us é totalmente independente do mundo, ao passo que o mundo é totalmente dependente d’ELE. O CRIADOR tudo vê, mas nenhuma de suas criaturas, nem mesmo os anjos, podem vê-LO diretamente(*). De fato, D’us está muito além da compreensão até mesmo dos seres celestiais mais elevados e sagrados. Isto significa que o ocultamento Divino é a escuridão para nós, não para D’us. A partir de SEU ponto de vista, não há barreira alguma entre ELE e sua criação – ELE nos vê como se estivéssemos dentro d’ELE. Mas, a partir de nosso ponto de vista, parece haver uma linha divisória entre D’us e o mundo.

(* Em outras palavras, nem mesmo os próprios anjos sabem o que D’us é.)

 

Podemos comparar esta situação a um espelho de um só lado. De um deles, é um espelho, enquanto que do outro é totalmente transparente. Nós, que olhamos do lado espelhado, conseguimos ver nossa imagem refletida e, por essa razão, aceitamos a nossa existência como um fato tácito e natural. Mas perante D’us, tudo é como o vidro translúcido, que nada encobre nem oculta, não havendo nenhuma barreira a nos separar d’ELE. Isto explica o fato de que D’us ouve todas as preces. Como o Ocultamento Divino não é real – mas meramente uma falta de percepção de nossa parte – não há separação real entre O CRIADOR e toda a criação. D’us percebe tudo, em todos os níveis, seja o desejo não expresso de uma criança ou o canto de um anjo. ELE está sempre infinitamente próximo, ainda que não O possamos ver.

Na corrente dos mundos espirituais, o nosso é aquele que mais oculta a Presença Divina. Na liturgia judaica e nos livros sagrados repete-se, muito apropriadamente, que D’us “está nos Céus”(*) – não porque ELE não esteja em lugar algum – mas porque nos mundos espirituais D’us é menos oculto. Nós, contudo, vivemos em um mundo que, como diz o Zohar, aparenta ser “um palácio sem governante”. E a razão para tal é que se D’us não SE ocultasse, nosso mundo seria obliterado por SUA Luz Infinita. O Tzimtzum, portanto, é um elemento essencial da criação. Mais do que isso, é o que nos outorga o livre arbítrio. Se sentíssemos a Presença de D’us pairando sobre nós e nos envolvendo, nenhum de nós conseguiria fazer nada de errado e o conceito do livre arbítrio perderia todo o seu significado.

 

(* Que D’us “mora no Céu” ou “está no Céu” é só mais uma metáfora, pois o próprio Céu, o Mundo Espiritual, também foi criado por D’us. Sim, a Existência Espiritual também é Criação de D’us. A única “coisa” que pode “conter” O INFINITO é A SUA Própria INFINITUDE. Veja

https://a-fe-original–noaismo.info/2017/11/19/a-nao-espiritualidade-de-dus/   .)

 

Assim é que está escrito que nenhum ser “há de ME ver e continuar vivo”. Mesmo os grandes Tzadikím e os mais sábios entre nossos sábios não podem ver O DIVINO, diretamente. Nem Moshé, a alma mais elevada que já existiu, pôde ser totalmente anulado diante da Essência Divina. Pois aquele que apenas vê A DIVINDADE perde seu livre arbítrio e não mais pode participar deste mundo.

Diz-se que em seus últimos momentos de vida, o Baal HaTanya, que se abrigava em uma cabana, chamou seu neto e lhe pediu: “O que você vê?” O neto, que viria a ser um grande Rebe, respondeu: “Vejo paredes de madeira e um teto”. O Baal HaTanya respondeu: “Pois eu, não. Neste momento, só vejo A DIVINDADE”. O Maguid de Mezeritch dizia que essa capacidade – de deixar de ver o mundo para apenas enxergar a fala Divina – é investida em um Tzadík três dias antes de seu falecimento. É o sinal de que seus dias neste mundo se esgotaram.

No que tange aos seres humanos, a anulação perante O DIVINO não deve ser interpretada como forma de repúdio ao mundo ou à própria existência. O nível Inferior da Unicidade é a nossa realidade e esta realidade não permite que se trate o mundo, os demais seres ou a própria vida como uma ilusão inconsequente. O nível Inferior de Unicidade foi criado por D’us com um propósito – para que tivéssemos como interagir com ELE. É a perspectiva de ser independente – de não conseguir ver que verdadeiramente nada existe além d’ELE – o que nos dá o livre arbítrio de nos agarrarmos a D’us ou de (ilusoriamente) negá-LO ou de (ilusoriamente) nos rebelarmos contra ELE. Assim sendo, abandonar o mundo a uma mera ilusão é frustrar o magnífico plano da Criação.

O que a anulação diante dO DIVINO requer – e é bem mais do que a maioria das pessoas alcança no curso de sua vida – é o sentimento genuíno de humildade e repúdio a auto-ego. O mais próximo ao “Unio-Mystica” – de total obliteração de si próprio – que há, neste mundo, é o estudo da Torá e o cumprimento de Seus mandamentos – através dos quais a pessoa anula sua própria vontade frente à Vontade Divina. O estudo da Torá, em particular, revela O DIVINO, pois como ensina o Zohar, é na Torá que D’us oculta SUA Luz Infinita.

O mestre chassid, Rabi Nachman de Bratslav, ensinava que o paradoxo da criação não será plenamente entendido até o fim dos dias. Mas, apesar de certamente ser melhor conhecer esse paradoxo do que manter conceitos errôneos sobre D’us e SUA Unicidade, nosso propósito neste trabalho não foi apresentar um enigma e deixá-lo em suspenso. Uma resposta possível é que o mundo é algo que reside entre a não-existência e a existência – e que está no processo de se tornar uma realidade. Temos razão para crer nisto porque o Talmud ensina que, no futuro, D’us SE revelará abertamente, mas a humanidade não será obliterada. O Baal HaTanya explica que a Torá que estudamos e os mandamentos que cumprimos são uma blindagem para este mundo que estamos construindo, para que, um dia, este mundo possa suportar, sem ser consumido, uma Revelação Divina explícita. E, à pergunta de por que o Ocultamento Divino deve chegar ao fim, a resposta é que tudo o que há de errado, no mundo, somente existe porque D’us SE oculta; as pessoas não vêem D’us e costumam usar o livre arbítrio para fazer o mal.

Portanto, por um lado, o mundo não pode ser aperfeiçoado até que a Luz Infinita seja revelada. Mas, por outro, essa Luz tem que permanecer oculta até que o mundo esteja pronto para suportá-la. Isto explica por que a perfeição do mundo é dependente de nossos atos: pois, cada vez que uma pessoa estuda a Torá ou cumpre a Vontade Divina, esta pessoa está transformando este mundo envolto em escuridão em uma Morada de D’us, um lugar onde um dia ELE possa livremente revelar SUA Luz Infinita. O Talmud ensina que quando esse dia vier, a Presença Divina será clara para todos nós. E nosso povo, que viveu por ELE e tanto sofreu por se recusar a negar a SUA Unicidade, proclamará: “ESTE é nosso D’us; esperamos por ELE e ELE nos salvou. Este é HaVaYaH por QUEM ansiamos, exultemos e rejubilemos em SUA salvação” (Isaías, 25:9).

 

Traduzido por Lilia Wachsmann

 

Bibliografia:

Rabi Shneur Zalman de Liadi, Sha’ar ha-Yichud veha-Emunah (Tanya),

Rabi Shneur Zalman de Liadi, Likutei Amarim (Tanya)

Talmud Bavli (Ta’anit)

Rabino Adin (Even Israel) Steinsaltz, Understanding the Tanya –Jossey-Bass

Rabino Adin (Even Israel), Steinsaltz The Sustaining Utterance — Jason Aronson

Rabino J. Immanuel Schochet, Mystical Concepts in Chassidism: An Introduction to Kabbalistic Concepts and Doctrines — Kehot Publ. Society

Rabino Yosef Wineberg, Lessons in Tanya — Merkos L’Inyonei Chinuch

Rabino Aryeh Kaplan, Inner Space -Moznaim Pub Corp

Rabino Shmuel Boteach, Wrestling with the Divine — Jason Aronson

Rabino Adin (Even Israel) Steinsaltz, Opening the Tanya – Jossey-Bass

Rabino Adin (Even Israel) Steinsaltz, Learning from the Tanya – Jossey-Bass

Rabbi Ben Tzion Krasnianski – Lessons in Tanya – http://www.lessonsintanya.com

 

Para mais informações sobre O QUE é D’us, sobre a Sua Torá, sobre o Seu Povo – o Povo Judeu -, e sobre O Caminho Espiritual que D’us deu a todos os não-judeus – o Caminho de Bnei Noach -, veja:

MANDAMENTOS DIVINOS PARA TODOS OS DESCENDENTES DE NOÉ

 

Outras matérias sobre a prova da Existência de D’us em

Seis textos especialmente selecionados para as questões  …

OS TREZE PRINCÍPIOS DA FÉ JUDAICA

Nas palavras transliteradas, “CH” deve ser pronunciado como “rr” e “SH” como “ch”.

 

Noaísmo e A TORÁ E OS JUDEUS E O JUDAÍSMO


 

“Assim disse HaVaYaH dos Exércitos: ‘Naqueles dias, dez homens de diferentes línguas e de todas as nações segurarão a orla das vestes do judeu, dizendo: Iremos contigo, porque sabemos que D’us está contigo!’” – Zechariá (Zacarias) 8:23

 

1° A VERDADE HISTÓRICA DA REVELAÇÃO DIVINA NO SINAI

2° A AUTORIA DA TORÁ

3° CONHECIMENTO E FÉ

4° OS FUNDAMENTOS DO JUDAÍSMO

5° A TORÁ ORAL

6° OS TREZE PRINCÍPIOS DA FÉ JUDAICA


 

OS TREZE PRINCÍPIOS DE FÉ DA TORÁ (DA FÉ JUDAICA/NOAICA)

 

Os Treze Princípios de Fé Judaica do Rabi Maimônides são uma das declarações mais claras e concisas da crença judaica. São, de fato, sua pedra fundamental. Maimônides foi o maior codificador e filósofo na História Judaica. Também conhecido como Rambám (Rabênu Moshé ben Maimon), Maimônides estudou a totalidade da literatura judaica sagrada e codificou os princípios do judaísmo. O Povo Judeu aceitou esses princípios como a crença clara e inequívoca do judaísmo.

Nosso propósito aqui é apresentar e discutir brevemente cada um dos Treze Princípios de Fé de Maimônides. Esses treze enunciados são a essência da crença judaica. Ao estudá-los, aprendemos sobre o que torna único o judaísmo: aquilo no que nós, judeus, cremos; por que cremos no que cremos; e porque não é possível para o Povo Judeu adotar as crenças e práticas de outras religiões.

Os Treze Princípios de Fé da Torá

Primeiro Princípio:

“Creio com plena fé que D’us é O CRIADOR de todas as criaturas e as dirige. Só ELE fez, faz e fará tudo”.

O Primeiro Princípio de Maimônides é a crença na existência de D’us. Este é o princípio fundamental do judaísmo, o pilar de todos os demais. O judaísmo se  inicia e termina em D’us. Como escreve Maimônides: “A base fundamental e pilar da sabedoria é a compreensão de que há uma EXISTÊNCIA inicial que fez todo o restante existir”. Tudo o mais nos Céus e na terra apenas existe como resultado da realidade de SUA existência (Yad, Yesodey HaTorah 1:1).

Segundo o judaísmo, D’us é a origem, essência e vida de tudo. D’us não é apenas um conceito religioso, mas a Realidade Absoluta. O judaísmo ensina que somente D’us é real, e a existência de tudo é tênue e condicionada à Vontade d’ELE. Muitas pessoas têm certeza de sua própria existência, mas questionam a existência Divina.

O judaísmo nos ensina que a existência Divina é certa e absoluta, ao passo que a de todo o restante é questionável. Ademais, o judaísmo afirma que D’us é completamente independente de toda a Sua criação, ao passo que tudo o que existe é completa e incessantemente dependente d’ELE. Isto significa que D’us não apenas criou tudo o que existe, mas ELE também o mantém, constantemente.  Nos livros sagrados judaicos encontramos com frequência que um dos nomes de D’us é HaMakom – “O Lugar”.  A razão para essa denominação, segundo o Midrash, é que “D’us é o lugar do mundo, mas o mundo não é o lugar de D’us”. Isso significa que o mundo existe dentro de D’us, e não que há um D’us nos reinos espirituais e um universo físico que existe fora d’ELE.

A Cabalá ensina que o maior milagre de todos, possibilitado por um D’us onipotente, é que um mundo finito existe dentro d’O INFINITO sem se tornar inexistente pela infinitude.  O mandamento de acreditar em D’us é o primeiro dos Dez Mandamentos: “Eu sou HaVaYaH, teu D’us…”.

Segundo Princípio:

“Creio com plena fé que O CRIADOR é Único. Não há unicidade igual à d’ELE. Só ELE é nosso D’us; ELE sempre existiu, existe e existirá”.

A proclamação fundamental da fé judaica, que os judeus devem recitar diariamente, duas vezes ao dia, é o Shemá Israel, “Escuta, Israel! HaVaYaH é nosso D’us, HaVaYaH é um só!” (Deuteronômio, 6:4). Ao recitar o Shemá, afirmamos nossa fé em D’us e proclamamos SUA unicidade.

A unicidade Divina é um princípio central do judaísmo. A existência e a unidade de D’us andam lado a lado. O judeu que não crê na unidade absoluta de D’us, na verdade não crê em D’us, ou melhor, crê em um deus que não existe.

A unicidade de D’us é um tema complexo, muito além do escopo deste trabalho; mas é essencial observar o seguinte. Crer na unidade Divina significa não atribuir poder a nada ou ninguém a não ser a D’us. ELE é o único MESTRE do Universo. Não podemos sequer atribuir poder independente a anjos (quaisquer que sejam), muito menos a objetos inanimados, tais como  os corpos celestiais, ou a seres humanos.

Muitas religiões creem em D’us, mas também em outras forças independentes no universo, ou possuem um conceito diferente da unidade Divina. Cada nação tem seu próprio caminho (não-judaico) para chegar a D’us e sua própria maneira (não-judaica) de se relacionar com ELE. Contudo, como D’us SE revelou a todo o Povo Judeu no Monte Sinai e lhes deu a SUA Torá, ELE exige do Povo Judeu que acredite em SUA unicidade absoluta e incomparável[*.

* Mas não nos esqueçamos de que ESTE MESMO D’us, O D’us de Israel, O D’us da Torá, é O CRIADOR de todas as coisas, O ÚNICO CRIADOR de tudo, O REI do universo, que SE revelou a Adám e Chavá (Adão e Eva) e a Nôach e Naamá e sua família, dando lhes mitsvót universais. Isto é o Noaísmo. E, portanto, o Noaísmo também requer que se acredite na unicidade absoluta e incomparável de Hashém.]

 

O judaísmo ensina que a unidade de D’us não é como a de uma espécie, que engloba muitos indivíduos. Para um judeu atribuir a D’us qualquer tipo de divisão – mesmo entre as Sefirot – é pura idolatria. E este é um dos poucos pecados que um judeu não pode cometer nem ao custo de sua própria vida.

A unicidade de D’us significa que ELE é uno, singular e indivisível. Significa que ELE é a única Realidade e fonte de poder no mundo. Nada se compara a ELE, nem o anjo mais elevado nem o mais santo entre os humanos. Um judeu que questiona a unidade Divina viola o segundo dos Dez Mandamentos: “Não terás outros deuses diante de MIM” (Êxodo, 20:3).

Terceiro Princípio:

“Creio com plena fé que O CRIADOR não possui um corpo. Conceitos físicos não se aplicam a ELE.  Não há nada que se assemelhe a ELE”.

O Terceiro Princípio é que D’us não é físico, não tem corpo. Como D’us é infinito, os conceitos de fisicalidade(*) não se aplicam a ELE, em hipótese alguma, pois tudo o que é físico é, por definição, finito. O universo, por exemplo, em sua imensidão, é finito. O conceito de infinitude, portanto, apenas se aplica a D’us.

(* Aqui inclue-se a questão de gênero.)

 

É importante observar que a Torá fala, com frequência, de D’us como se ELE tivesse atributos físicos (como “os olhos de D’us”) e como se ELE tivesse reações humanas (D’us “se recorda”, ou “se zanga”). Quando se refere a D’us, a Torá emprega metáforas para que até mesmo uma criança possa relacionar-se com seus ensinamentos. Se, em vez de dizer, “D’us se zangou”, a Torá dissesse que “o Atributo de Guevurá Divina foi despertado”, muitos de nós não entenderíamos o que a Torá estava a nos transmitir.

Podemos perguntar: “Se D’us  é Onipotente, o que O impede  de assumir forma física ou humana?” (*) Na verdade, o princípio de que a fisicalidade não se aplica a D’us parece desafiar o conceito de que D’us é onipotente. Diante de tais paradoxos, devemos ter em mente que, pelo fato de D’us estar acima de quaisquer limitações, não podemos empregar a lógica humana para  O entender. Isso não significa que a crença em D’us é ilógica. Significa que como um ser finito não pode entender O INFINITO, tudo o que podemos conhecer acerca de D’us é o que ELE nos fez conhecer através de SUA Torá. Quanto a questionar  se D’us pode assumir forma física ou humana, isso não é nada diferente do que perguntar se D’us pode cometer suicídio ou criar uma divindade mais forte do que ELE ou mesmo uma pedra que ELE mesmo não consiga levantar. Esses paradoxos não se aplicam a uma EXISTÊNCIA Onipotente e, de fato, são insolúveis e intermináveis. Considerem o seguinte: como D’us é Onipotente, ELE pode, sim, criar uma pedra que ELE PRÓPRIO não consiga levantar, mas, como ELE é Onipotente, após ter criado essa tal pedra, ele consegue levantá-la.

(* Na verdade, sendo D’us O INFINITO, SUA INFINITUDE já SE encontra dentro mesmo de toda a fisicalidade. Portanto, este entendimento nada tem a ver com a falsa crença de uma encarnação.)

 

A mente humana, finita e falível, conhece apenas uma parte infinitesimal acerca do universo finito em que habitamos. Muito menos é o que sabemos sobre D’us.

O pouco que sabemos é o que D’us nos revelou através de SUA Torá. Na Torá, ELE nos diz que ELE não muda. Isso é fácil de entender: como D’us é atemporal, e a mudança é uma função do tempo, o conceito de mudança não se aplica a D’us. Portanto, ELE, por definição, não faz nada que possa causar uma mudança em SI MESMO. SUA infinitude, SUA onipotência, SUA unicidade, SUA eternidade e SUA não-fisicalidade, entre todos os SEUS demais atributos, são atemporais e, portanto, eternos e imutáveis.

Quarto Princípio:

“Creio com plena fé que O CRIADOR é o primeiro e o último”.

O Quarto Princípio envolve a eternidade absoluta de D’us. Nada mais compartilha SUA qualidade Eterna. A Torá discute esse ponto repetidamente.

No Terceiro Princípio acima, vimos que D’us é uma EXISTÊNCIA atemporal: os conceitos de tempo não se aplicam a ELE. ELE é o primeiro e o último, no sentido de que como ELE está além do tempo, os conceitos de antes, durante e depois não se aplicam a ELE. ELE não teve começo e não tem fim.

Muitas pessoas perguntam: “D’us criou tudo, mas quem O criou?”.  A resposta, obviamente, é: ninguém. A criação implica em um início, que é uma função de tempo. E D’us é atemporal, eterno: ELE sempre existiu e sempre existirá. Portanto, D’us não teve origem nem criador. O universo, no entanto, teve um início, e sua origem é D’us.

A Teoria da Relatividade nos ensina que o espaço e o tempo são atributos da matéria. Isso significa que quando D’us criou um universo físico, ELE também criou o espaço e o tempo. Como D’us precede a SUA criação, os conceitos de matéria, espaço e tempo não se aplicam a ELE, de forma alguma. Muitos perguntam: “Quanto tempo D’us esperou  antes de criar o universo?”.  A resposta, novamente, é que antes da criação do universo, o conceito  de tempo não existia. Não se pode falar de tempo antes da Criação. D’us criou tudo o que existe, inclusive o conceito de tempo, e continua a manter toda a Criação, incessantemente.

Quinto Princípio:

“Creio com plena fé ser adequado orar somente aO CRIADOR. Não se deve rezar para ninguém ou nada mais”.

O Quinto Princípio nos ensina que é absolutamente proibido orar a qualquer outro que não seja D’us. Para o judeu, é pura idolatria orar até mesmo aos mais elevados anjos Divinos. Como D’us é A Realidade Absoluta – pois ELE é uno, ilimitado e eterno – não há lugar para qualquer outro poder independente no universo. Como D’us é O INFINITO, está em toda parte e prontamente acessível a qualquer um (judeu ou não-judeu). Por ser a única Realidade no universo, não apenas seria profano, mas também ilógico orar a qualquer outro que não ELE.

O judaísmo proíbe totalmente que haja um intermediário entre um judeu e D’us (e por extensão, também o noaísmo, entre um noaíta e D’us). Podemos pedir que alguém nos abençoe e mesmo que ore por nós, mas não oramos a nenhum intermediário – nem a um anjo, nem a outro ser humano, independentemente de quão santificado possa ser. Podemos pedir a outros que orem por nós, mas isso também não nos isenta de nossa obrigação diária de orar a D’us.

Sexto Princípio:

“Creio com plena fé que todas as palavras dos profetas (judeus) são autênticas”.

O Sexto Princípio refere-se à profecia.

A profecia é um elemento necessário da religião, porque para que D’us INFINITO e o homem finito tenham um relacionamento significativo, há que haver alguma forma de comunicação entre os mesmos. O homem não pode viver de acordo com a Vontade Divina a menos que D’us a revele a ele. A função do profeta é transmitir as mensagens Divinas, seja ao indivíduo seja às nações.

É importante observar que uma pessoa que realiza milagres ou prevê com precisão o futuro não é, necessariamente, um profeta. Os feiticeiros do Faraó também conseguiam realizar milagres – fazer a água virar sangue, entre outros – e, com certeza, não eram profetas de D’us. Um verdadeiro profeta judeu não é simplesmente alguém que consegue realizar milagres – mas um servo de D’us, totalmente devotado à Torá e a seus mandamentos.

A função de um profeta judeu é fortalecer a fé do povo no Todo Poderoso e em SUA Torá. Se alguém alegando ser profeta se opõe à Torá de qualquer maneira que seja, ele é um falso profeta, não importa quantos milagres consiga realizar.

Sétimo Princípio:

“Creio com plena fé que a profecia de Moshé Rabênu é verdadeira. Ele foi o mais importante de todos os profetas, antes e depois dele”.

Diferentemente das demais religiões, o judaísmo não atribui poder divino algum a seus patriarcas, profetas e líderes. A Torá ensina que Moshé, o maior de todos os profetas, era um simples ser humano, nascido de pais humanos como qualquer um de nós. Ele era o mais humilde dos homens e chegou ao mais elevado nível espiritual que um ser humano pode atingir. Ele soube compreender a Divindade em um grau que superou qualquer ser que existiu.

Diferentemente dos demais profetas, antes e depois dele, Moshé falou com D’us “face a face”, como amigos que conversam entre si. Ele foi, portanto, o canal usado por D’us para transmitir SUA Torá ao Povo Judeu. Moshé apenas repetiu o que D’us lhe disse, e, portanto, qualquer profeta que contradissesse suas palavras, estaria contradizendo as palavras do Altíssimo.

É fundamental observar, como ensina Maimônides, que o Povo Judeu não acredita em Moshé por causa dos milagres que realizou. Milagres não comprovam nada: feiticeiros e idólatras também conseguem realizar atos sobrenaturais. Acreditamos em Moshé não por causa das 10 Pragas e da Divisão do Mar, mas pelo ocorrido no Monte Sinai. A Revelação Divina no Sinai é a única prova real de que a profecia de Moshé foi verdadeira. A Torá ensina que D’us disse a Moshé: “Eis que EU venho a ti, na espessura da nuvem, para que o povo ouça enquanto EU falo contigo, e também em ti crerão para sempre” (Êxodo, 19:9). (Três) milhões de judeus testemunharam essa Revelação Divina, que finalmente consolidou a alegação de Moshé de que ele era emissário de D’us.

Como ele foi o maior de todos os profetas – nem mesmo o Mashiach será um profeta de seu calibre – não aceitamos que qualquer pessoa que alegue ser profeta tente refutar sua profecia. Não o aceitaríamos, independentemente de quão grandes fossem seus milagres. Como cremos em Moshé devido à Revelação Divina no Sinai, e não devido aos milagres que realizou, os milagres realizados por outra pessoa não têm precedência sobre a Torá, em hipótese alguma.

Oitavo Princípio:

“Creio com plena fé que toda a Torá que se encontra em nosso poder foi dada a Moshé Rabênu”.

O Oitavo Princípio significa que a Torá que nos foi entregue por Moshé foi originada por D’us. A Torá é a “Palavra de D’us”, não de Moshé. D’us transmitiu a Torá a Moshé, letra por letra, e ele meramente as escreveu como um secretário que ouve um ditado. Ele foi o “secretário” de D’us.

Segundo o judaísmo, a Torá é a Sabedoria Divina. Como seu Autor é perfeito e eterno, assim é a Torá. Se um ser humano tivesse escrito a Torá, até alguém tão sagrado quanto Moshé, estaria sujeita a correções e mudanças. Como foi escrita por D’us, é imutável. É por isto que, segundo a Lei Judaica, um pergaminho de Torá não pode conter erro algum: se apenas uma única letra estiver faltando ou incorreta, todo o Sêfer Torá fica invalidado.

Cada letra, palavra ou versículo da Torá são igualmente sagrados. O judeu que diz que D’us deu a Torá toda à exceção de uma única palavra, que foi composta por Moshé e não por D’us, é um cético da pior espécie.

Cada mandamento dado a Moshé no Monte Sinai foi entregue juntamente com uma explicação. Pois está escrito: (Sobe a MIM, ao monte…); e dar-te-ei as tábuas de pedra, a Torá e instruções” (Êxodo, 24:12). “Torá” refere-se à Torá Escrita, enquanto “instruções” são sua interpretação. A Torá Escrita não pode ser entendida sem sua interpretação. Essa interpretação é o que chamamos de Torá Oral.

Nono Princípio:

“Creio com plena fé que esta Torá não será alterada, e que nunca haverá outra dada pelo CRIADOR”.

O Nono Princípio é o que verdadeiramente diferencia o judaísmo de todas as demais religiões. Esse princípio ensina que a Torá é permanente e imutável. Por esta razão os judeus não se podem converter a nenhuma outra religião – porque o judaísmo não aceita que se mude a Torá – Escrita e Oral – de forma alguma. D’us nos diz em Sua Torá: … “Não acrescentareis nem subtraireis nada disso” (Deuteronômio, 13:1).

A Torá tem 613 mandamentos (para o povo judeu) (e mandamentos de moralidade para os não-judeus). Nem um ser humano, nem mesmo um grande profeta pode agregar, subtrair ou mudar qualquer um deles. Todas as leis rabínicas instituídas por nossos Sábios têm que ser uma ramificação de um desses 613 mandamentos – não um novo mandamento em si mesmo. A Torá e seus mandamentos são a Constituição do Povo Judeu. Nossos sábios e juízes podem interpretar a Lei e reforçá-la. Contudo, não podem adulterá-la. Por exemplo, ninguém – nem um rabino nem mesmo um profeta – pode decretar que as leis de cashrút não mais se aplicam ou então mudar o dia em que guardamos o Shabát.  É permissível decretar leis rabínicas para fortalecer as leis bíblicas, mas está além do poder de qualquer ser humano modificar lei alguma da Torá.

D’us deu a Torá (das 613 Leis) apenas ao Povo Judeu. Outras religiões adaptaram-na ou a modificaram. Isso pode ser aceitável para eles, mas certamente não para o Povo Judeu. Alguém (judeu ou não-judeu) que alega ser profeta e tente mudar um pingo da Torá para o Povo Judeu, é um falso profeta. O mesmo se aplica se essa pessoa tentasse ensinar que os mandamentos dados ao Povo de Israel são temporários, e não perpétuos.

A Torá – Sabedoria e Vontade de D’us – é inalterável e intocável. Tentar encontrar falhas nela – mudá-la de alguma forma – é buscar falhas em seu AUTOR. Assim como D’us é Eterno e Imutável, também  o é a Torá. As circunstâncias que determinam as leis da Torá podem mudar – por exemplo, na ausência do Templo Sagrado, somos incapazes de cumprir muitos dos mandamentos da Torá. Da mesma forma, durante a Era Messiânica – uma era de paz e prosperidade universal – muitas das leis da Torá, tais como as relativas ao roubo e homicídio, deixarão de ser válidas. Mas isso não significa que a Torá mudará, e sim, que algumas de suas leis não mais serão aplicáveis.

Há uma declaração no Livro de Isaías sobre a entrega de uma nova Torá, no futuro. Isso significa que na Era Messiânica, nossa compreensão da Torá será tão mais profunda do que é hoje – já que a Sabedoria Divina cobrirá a Terra – que aparentará ser uma nova Torá. No entanto, será a mesma Torá, porque, apesar de ter mudado o mundo, D’us e SUA Sabedoria não mudarão.

Décimo Princípio:

“Creio com plena fé que O CRIADOR conhece todos os atos e pensamentos do ser humano. Como está escrito (Salmos, 33:15), “ELE analisa os corações de todos e perscruta todas as suas obras”.

O Décimo Princípio diz que D’us é Onisciente: ELE sabe tudo o que ocorre no universo e tudo o que os homens fazem. Esse princípio nega a opinião daqueles que alegam que… “HaVaYaH abandonou o Seu mundo…” (Ezequiel 9:9).

Esse princípio é fundamental não apenas para o judaísmo, mas para qualquer religião, pois um D’us que não é onisciente não é D’us. Não conhecer todos os atos e pensamentos humanos implica em falibilidade e limitações, e D’us é infalível e ilimitado. Para poder julgar o homem com justiça, D’us precisa conhecer seus pensamentos, palavras e atos.

Décimo-primeiro Princípio:

“Creio com plena fé que O CRIADOR recompensa aqueles que cumprem SEUS preceitos e pune quem os transgride”.

O Décimo-primeiro Princípio nos ensina que D’us não é apenas O CRIADOR do Universo e seu Legislador, mas também seu Juiz. O judaísmo rejeita, com veemência, o conceito do Deísmo – de que D’us criou o mundo e depois o abandonou. Sabemos perfeitamente que a justiça humana falha – vemos pessoas justas sofrerem e pessoas más prosperarem – mas o judaísmo nos ensina que, no fim das contas, nesta vida ou na outra, D’us aplica a justiça. É importante notar que como D’us é infinito e eterno, atemporal, também o são Suas recompensas e punições.

A maior recompensa Divina possível é o Mundo Vindouro, ao passo que o maior castigo possível é ser banido do mesmo. Portanto, D’us pode recompensar alguém com júbilo infinito ou sofrimento. Aqueles que perpetram a maldade neste mundo devem saber que, um dia, D’us os responsabilizará por seus atos e os punirá, de acordo. É importante que não interpretemos o conceito de recompensa e castigo do judaísmo de maneira infantil. Recompensa é a consequência direta de se ligar à Origem de Toda a Vida, ao passo que a punição é o sofrimento que se segue ao distanciamento da pessoa de D’us. Cada vez que um ser humano realiza um ato de bondade, de nobreza ou de santidade, ele fortalece sua conexão com D’us. Por outro lado, cada vez que ele comete uma ação reprovável ou viola a Vontade Divina, ele enfraquece essa conexão. O propósito dos mandamentos da Torá é fortalecer nosso vínculo com D’us.

Décimo-segundo Princípio:

“Creio com plena fé na vinda de Mashíach (o verdadeiro messias). Mesmo que demore, esperarei por sua vinda a cada dia”.

A crença na vinda do Mashíach é um dos princípios fundamentais do judaísmo. Infelizmente, esse conceito criou muitas divisões e disputas entre indivíduos, nações e religiões. Cada pessoa e cada grupo religioso têm direito a ter suas próprias opiniões, inclusive sobre a identidade do Messias, sobre quando ele virá e sobre o que ocorrerá na Era Messiânica.

No entanto, é importante observar o seguinte: o judaísmo apresentou ao mundo o conceito do Mashiach. Portanto, se buscamos conhecer objetivamente o assunto, temos que procurar em sua fonte original.

Segundo o judaísmo, para que um homem seja o Messias, é necessário que preencha as seguintes condições: seus pais precisam ter sido judeus e ele precisa ser descendente da Casa de David. Portanto, o Messias e todos os seus antepassados paternos têm que pertencer à tribo de Yehudá. Um Cohen ou Levi, por exemplo, não pode ser o Messias.

O Mashiach será um grande  líder e um profeta, um Tzadíc e um Sábio que irá seguir meticulosamente a Torá Escrita e a Torá Oral. Ele irá liderar todos os judeus de volta ao caminho do judaísmo e fortalecerá o cumprimento de suas leis.

Além de possuir tais qualidades, há certas coisas que o Messias precisa fazer (durante o decorrer da era messiânica) para comprovar ser quem é. Precisa construir o Templo Sagrado de Jerusalém e reunir todos os judeus que vivem na Diáspora e levá-los à Terra de Israel. Ele, então trará uma era de paz para todo o mundo. Liderará este mundo à sua perfeição e levará todos os seres humanos – judeus ou não – a servirem D’us em unidade.

Na Era Messiânica, não haverá idolatria, roubo nem injustiça. Não haverá guerras nem fome.  A inveja e a competição deixarão de existir, pois todas as coisas boas abundarão e todos os tipos de delícias serão comuns como o pó da terra. A principal ocupação da humanidade será conhecer D’us. Nas palavras do profeta Isaías:  “… porque a Terra estará repleta do conhecimento de HaVaYaH, como as águas cobrem o mar” (Isaías, 11:9).

Décimo-terceiro Princípio:

“Creio com plena fé na Ressurreição dos Mortos que ocorrerá quando for do agrado dO CRIADOR”.

O Décimo-terceiro Princípio envolve a ressurreição dos mortos. A importância desse conceito é nos ensinar que na Era Messiânica D’us aperfeiçoará o mundo, mesmo retroativamente. Além de ninguém morrer, mesmo os já falecidos voltarão à vida.

A ressurreição dos mortos é um dos fundamentos do judaísmo.  O Décimo-terceiro Princípio nos ensina que apesar do histórico de guerras e sofrimento do mundo, tudo terminará com um final feliz. D’us recompensará os justos do mundo, judeus ou não, com uma recompensa eterna.

Conclusão

Neste trabalho, explicamos muito brevemente os Treze Princípios de Fé de Maimônides. Eles constituem os pilares do judaísmo (e por extensão, do noaísmo).

Antes de concluir, temos de fazer a seguinte observação. O judaísmo pertence exclusivamente ao Povo Judeu. Os Treze Princípios de Fé de Maimônides, portanto, apenas têm relevância para os judeus (e por extenção, para os Bnei Noach, enquanto exatamente Princípios de Fé). Outras religiões têm seus próprios profetas, livros sagrados e ideias sobre D’us.

O judaísmo ensina que não é necessário ser judeu para [(ser uma boa pessoa e ser devidamente recompensado por D’us. Mas muito mais do que isso, qualquer não-judeu pode)] conseguir ligar-se a D’us, receber a recompensa Divina e ter um lugar no Mundo Vindouro. Basta ser uma pessoa justa e viver uma vida de integridade, justiça e bondade [por verdadeiramente conhecer D’us e servi-LO corretamente, em outras palavras, por ser um Devoto de Hashém entre as nações,  um cumpridor de SUA vontade – de SUAS Mitsvót Universais – revelada na Torá dada por Moshé ao povo judeu no Monte Sinái -, ao abandonar as religiões e retornar às suas origens, às suas raízes, espirituais: o Noaísmo.] D’us tem muitos filhos, e ELE tem diferentes expectativas de Seus filhos (judeus e não-judeus. Enquanto o) cristianismo é, no pensamento cristão,  o caminho certo para os cristãos, e o Islã é, no pensamento maometista, o caminho certo para os muçulmanos, o judaísmo é o único caminho para os judeus. É fundamental para todos os judeus entenderem e praticarem o judaísmo. Os Treze Princípios de Fé de Maimônides resumem a sua essência: aquilo em que nós, judeus, cremos, e por que o Povo Judeu deve permanecer fiel, para sempre, à Torá e a seus mandamentos.

– Instituto Morashá de Cultura

© Instituto Morashá de Cultura.

Site Bnei Noach (BRA)_Bnei Noach_Filhos de Noé_Leis Universais_Noaismo.info

© Projeto Noaismo Info (Site Bnei Noach)

 

Para verificar a importância dos Treze Princípios para os Bnei Noach:

MANDAMENTOS DIVINOS PARA TODOS OS DESCENDENTES DE NOÉ

O QUE É A TORÁ ORAL

Noaísmo e A TORÁ E OS JUDEUS E O JUDAÍSMO


“Assim disse HaVaYaH dos Exércitos: ‘Naqueles dias, dez homens de diferentes línguas e de todas as nações segurarão a orla das vestes do judeu, dizendo: Iremos contigo, porque sabemos que D’us está contigo!’” – Zechariá (Zacarias) 8:23

 

1° A VERDADE HISTÓRICA DA REVELAÇÃO DIVINA NO SINAI

2° A AUTORIA DA TORÁ

3° CONHECIMENTO E FÉ

4° OS FUNDAMENTOS DO JUDAÍSMO

5° A TORÁ ORAL

6° OS TREZE PRINCÍPIOS DA FÉ JUDAICA


 

A Torá Oral

Muitas pessoas fazem uma pergunta aparentemente legítima: se a Torá Oral se originou de D’us, por que houve a necessidade de ser a mesma contestada, discutida e esclarecida?

O judaísmo se diferencia de todas as outras religiões pelo fato de não se ter originado de uma pessoa que alegava ter recebido uma mensagem das Alturas. Todas as outras começaram a partir de um indivíduo que, através de seus ensinamentos, arregimentava adeptos e convertidos. Apenas o judaísmo foi criado por D’us, ao reunir três milhões de pessoas no sopé do Monte Sinai, ocasião em que, pela primeira e única vez, revelou-SE abertamenteA veracidade da Torá é, pois, irrefutável, sendo esta a razão para que nem mesmo as demais religiões* fundadas a partir do judaísmo tenham sequer ousado negar sua origem Divina. Essa Revelação Divina, que se seguiu ao Êxodo do Egito, forjou um vínculo entre D’us e o povo judeu em todas as gerações. Este vínculo foi estabelecido pela Torá. Portanto, é claro que a Torá é o pilar do judaísmo, e que sem a mesma não haveria religião judaica.

(* Cristianismo, Islamismo, Kardecismo, etc.)

Apesar de o termo Torá abranger todos os fundamentos, leis e ensinamentos do judaísmo, literalmente refere-se aos 5 livros que nos foram transmitidos por D’us – letra por letra – a Moisés no Monte Sinai. Os cinco livros de Moisés – Bereshít (Gênese), Shemót (Êxodo), Vayikrá (Levítico), Bamidbár (Números), Devarím (Deuteronômio) – compõem o que conhecemos como a Torá Escrita, ou Torah she-Bichtav.

D’us também transmitiu a Moisés a Torá Oral, Torah she-Be’alpeh, que consiste das interpretações e explicações dos mandamentos da Torá Escrita. Moisés possuía o mais alto grau de profecia e, por isso, D’us pôde ensinar-lhe a Torá Oral de forma abrangente e detalhada. Pois está escrito: “Falava D’us a Moisés face a face, como um homem qualquer fala a seu amigo” (Êxodo 33:11). Ao mencionar especificamente a transmissão da Torá Oral, D’us disse: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas” (Números 12:8).

A transmissão da Torá Oral é claramente revelada na Torá Escrita. Pois está escrito: “São estes os estatutos, juízos e leis (Torá) que deu HaVaYaH entre SI e os filhos de Israel no Monte Sinai, pela mão de Moisés” (Levítico 26:46). É importante notar que a palavra Torá está no plural, pois se refere tanto à Torá Escrita quanto à Oral (Rashi; Sifra). Em outra parte da Torá Escrita, D’us diz a Moisés: “Dar-te-ei tábuas de pedra, e a lei e os mandamentos que escrevi” (Êxodo 24:12). As tábuas de pedra são os Dez Mandamentos, a lei (Torá) significa a Torá Escrita e os mandamentos referem-se à Torá Oral. De fato, a Torá Escrita faz inúmeras alusões à Torá Oral. Por exemplo, está escrito: “Então matarás as tuas vacas e tuas ovelhas…como te ordenei” (Deuteronômio 12:21). Isto implica na transmissão das instruções sobre o abate casher de animais, apesar de que não são dadas explicações. De fato, a maioria de nossos mandamentos nunca são explicados na Torá Escrita. A mitzvá da guarda do Shabát é um dos Dez Mandamentos, mas não há nenhuma instrução sobre o significado de guardar o Shabát. São mencionados, também, outros mandamentos tais como a colocação de mezuzót, de tefilín, o cumprimento das festas judaicas, mas não são discutidos, de fato, na Torá Escrita. Está bem claro que todas as instruções são encontradas na Torá Oral.

Mas, por que razão, D’us não teria transmitido a totalidade da Torá por escrito?

O Rabi Aryeh Kaplan comenta em sua obra Guia do Pensamento Judaico, que a Torá Oral tinha o propósito de ser transmitida do mestre para o discípulo. Desta forma, o aluno não confiaria em sua própria interpretação de um texto escrito, e buscaria esclarecimento para suas dúvidas com seu mestre. Se a totalidade da Torá tivesse inicialmente sido escrita, as pessoas iriam interpretá-la como o desejassem, e isso iria causar importantes desavenças no seio do povo judeu. E já que a Torá Oral não podia ser escrita, dependeria de autoridades centrais para preservá-la e ensiná-la sem dar margem a ambigüidades.

Há uma razão ainda mais forte para a necessidade de uma Torá Oral. Apesar de a Bíblia Hebraica originalmente ter sido dada apenas ao povo judeu, foi adotada por grande parte da humanidade. A Divina Providência utiliza-se da Bíblia Judaica para pouco a pouco levar a humanidade até mais perto da Verdade Suprema. Se a Torá tivesse sido totalmente escrita, outros povos a teriam adotado, e o povo de Israel deixaria de ser único e singular. Em um dos livros de nossa Bíblia, D’us confirma-o através desta frase: “Embora eu lhe escreva a minha Torá em 10 mil preceitos, estes seriam tidos como coisa estranha” (Oséias 8:12). Assim sendo, a Torá Oral não apenas define a Torá Escrita, mas é o fator que realmente distingue o judaísmo de toda a outras religiões.

A Mishná

Antes de falecer, Moisés escreveu os 13 rolos da Torá e ensinou a Torá Oral ao profeta Josué bin Nun. A Torá Oral foi então transmitida por Josué aos anciãos de Israel, a seguir aos profetas e, por fim, ao Sanhedrín. Este, ou sinédrio, era a corte suprema de Israel, e tinha a missão de guardar, interpretar e legislar sobre todos os assuntos acerca das leis da Torá. Durante o período do Segundo Templo, o Sanhedrín codificou a Torá Oral. Essa codificação tornou-se conhecida como a Mishná. Uma razão para esse nome foi o fato de revelar que o propósito da codificação da Lei Oral era o de que seria revista (em hebraico, shaná) continuamente, até que fosse memorizada. Os sábios que originalmente ensinavam a Mishná eram conhecidos como os Tanaim.

A Mishná foi posteriormente colocada por escrito pelo Rabi Yehuda ha-Nasi, a quem comumente nos referimos como Nosso Santo Rabino. Este erudito reuniu todas as leis, tradições, explicações e comentários de toda a Torá e a seguir compilou-os na Mishná que hoje conhecemos. Terminou seu trabalho no ano de 3948 (188 antes da era comum).

Mas por que motivo o Rabi Yehuda ha-Nasi teria rompido com a tradição de não se escrever a Torá Oral?

Porque, com a destruição do Segundo Templo, a Torá Oral corria o perigo de ser esquecida. Diminuía o número de eruditos estudiosos da Torá e os judeus se dispersavam por todo o mundo. O Rabi Yehuda ha-Nasi, portanto, escreveu a Mishná para que mesmo que os judeus se afastassem de seus mestres, ainda assim poderiam estudar e seguir a Torá Oral e, assim, preservar o judaísmo.

Além da Mishná, foram escritos outros volumes interpretativos da Torá Oral pelos alunos do Rabi Yehuda ha-Nasi. Entre seus discípulos incluíam-se alguns de nossos mais famosos sábios: o Rabi Chiya, Rav, Bar Kapara, Rabi Yochanan e Rabi Hoshia. Rav redigiu a Sifra e o Sifri, que são comentários sobre três dos livros da Torá Escrita: Levítico, Números e Deuteronômio. O Rabi Chiya escreveu a obra Toseftá que elucida alguns dos conceitos da Mishná. O Rabi Hoshia e Bar Kapara escreveram Beraitot para explicar as palavras da Mishná. Trezentos anos após a destruição do Segundo Templo, o Rabi Yochanan redigiu o Talmud de Jerusalém, ou Talmud Yerushalmí. Este Talmud basicamente trata das leis referentes à Terra de Israel. Mas quando as pessoas falam do Talmud, geralmente não se estão referindo ao de Jerusalém, mas sim ao Talmud Babilônico, também chamado de Guemará.

O Talmud Babilônico

Em tempos remotos, os sábios da Torá estudavam a Lei Oral para, a seguir, fazer a análise de seu trabalho através de discussões. Após ter sido compilada a Mishná, tais discussões – que se tornaram conhecidas como a Guemará – serviram para esclarecê-la. A Guemará foi transmitida oralmente e preservada durante cerca de 300 anos após ter sido escrita a Mishná. Quando surgiu claramente o perigo de que a Guemará fosse esquecida, os dois maiores eruditos da época sobre Torá – Ravina e Rav Ashi – redigiram a Guemará por escrito. Com a ajuda de seus discípulos, nas academias de ensino da Babilônia, Ravina e Rav Ashi coletaram e ordenaram todas as discussões que compunham a Guemará. Esta compilação da Guemará – que incluía a Mishná – tornou-se conhecida como o Talmud Babilônico ou, em hebraico, Talmud Bavli. Foi finalmente publicado no ano de 4265 (505 antes da era comum).

O Talmud, que literalmente significa “estudo” ou “aprendizado”, é, portanto, composto da Mishná – um livro de Halachá (lei judaica) escrito em hebraico – e da Guemará – o comentário sobre a Mishná, que foi escrito em aramaico/hebraico. O Talmud Babilônico foi aceito pelo povo judeu como a autoridade máxima e suprema em todas as questões sobre a religião e a lei judaica. As leis da Torá só têm vínculo legal se forem baseadas no Talmud.

A autoridade do Talmud

Muitas pessoas fazem uma perguntam aparentemente legítima: se a Torá Oral se originou de D’us, por que houve a necessidade de ser a mesma contestada, discutida e esclarecida?

Há várias respostas para isso, mas talvez a principal seja a de que a Torá Oral tinha por objetivo cobrir a infinidade de casos que haveriam de surgir com o decorrer do tempo. É impossível que qualquer código de lei cubra, explicitamente, qualquer caso ou situação que surja durante os milênios. D’us deu a Moisés as duas tábuas da lei, mas a aplicação dessas leis em qualquer cenário possível teria que ser determinada pelos eruditos e juízes da Torá. Pois está escrito: “Quando alguma coisa te for difícil demais em juízo… virás aos sacerdotes levitas e ao juiz que houver nesses dias, e inquirirás; e te anunciarão a sentença do juízo” (Deuteronômio 17:8-9). Esses juízes da Torá eram os membros do Sanhedrin que preservavam e interpretavam a Torá Oral e que mais tarde a codificaram como a Mishná.

A Torá Escrita também ordena ao povo judeu obedecer o Sanhedrin em tudo o que diz respeito às leis da Torá, pois que está escrito: “Segundo mandado da lei que te ensinarem e de acordo com o juízo que te disserem, farás; da sentença que te anunciarem não te desviarás nem para a direita nem para a esquerda” (Deuteronômio 17:11).

O povo judeu todo aceitou a autoridade do Talmud como sendo a fonte das leis da Torá e, como tal, jamais poderá ser revogado por autoridade alguma. O Talmud inclui os ensinamentos de nossos sábios que receberam a Lei Oral das gerações que os antecederam, remontando-se até Moisés. Está claro que alguém que rejeite o Talmud, está desrespeitando a Torá Oral, pedra fundamental do judaísmo. Sem o Talmud, seria praticamente impossível entender e cumprir os mandamentos da Torá Escrita. A mera aceitação da Bíblia Hebraica faria dos judeus um povo em nada diferente da maioria dos outros povos, que também a aceitaram como sendo a Palavra de D’us.

À luz de tudo isso, não é de surpreender que aqueles que buscaram, desesperadamente, converter todos os judeus, proibiram o estudo talmúdico. Em 1240, 1264 e 1553 antes da era comum, a Igreja Católica promulgou decretos que ordenavam a queima das cópias do Talmud. Durante certos períodos, as autoridades eclesiásticas “corrigiam” o Talmud, apagando passagens que consideravam ofensivas a seu credo. Finalmente, em 1592, a Igreja proibiu o estudo do Talmud em qualquer de suas versões ou edições. Este decreto foi promulgado como reconhecimento de que uma sociedade que não estude nem siga o Talmud não tem chance real de sobreviver. Ao longo da história, os inimigos de nosso povo tentaram obliterar o judaísmo tentando destruir o Talmud. O povo judeu só conseguiu preservá-lo ao preço de inúmeras vidas, mesmo a de alguns de nossos maiores sábios. Por terem preservado o Talmud, estes salvaram o judaísmo.

A eternidade da Torá

Um dos pilares da religião judaica é o fato de a Torá ser eterna e ser a imutável Palavra de D’us. Na Torá Escrita, D’us proclama a eternidade da Torá e de seus mandamentos: “as coisas encobertas pertencem a HaVaYaH, nosso D’us, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei (Torá) (Deuteronômio 29:28). Vemos, também, que na nossa Bíblia, em meio às palavras finais dirigidas por D’us a um profeta, encontrava-se o seguinte: “Lembrai-vos da lei (Torá) de Moisés, Meu servo, a qual lhe prescrevi em Horeb (Sinai) para todo o Israel, a saber, estatutos e juízos” (Malaquias 3:22).

Nenhum sábio ou profeta, muito menos um auto-proclamado Messias(*), pode modificar ou anular nem a Torá Escrita nem a Oral. Aquele que alega ser profeta de D’us pode realizar sinais ou milagres, mas se disser que D’us o enviou para alterar ou revogar a Torá, esta pessoa é um falso profeta. Na Torá Escrita, D’us nos alerta sobre os falsos profetas que iriam realizar milagres e tentar desviar o povo judeu dos mandamentos e das tradições de Sua Torá(**.

* Yeshu (Jesus); Muhammed (Maomé).

** Este texto alerta contra algum falso profeta judeu, ou seja, alguém que nasceu judeu (por exemplo, Jesus). No entanto, as mesmas admoestações servem contra falsos profetas não-judeus (logicamente à parte da execução).

Sobre o porque de os judeus não aceitarem Jesus como profeta ou como messias, veja

https://a-fe-original–noaismo.info/2017/12/20/a-verdadeira-historia-de-jesus-e-do-cristianismo/   .)

 

Mas, por que motivo D’us permitiria que tais pessoas chegassem a ter o poder de realizar milagres?

A isto, D’us responde na Torá Escrita. Este será Seu teste para determinar se somos leais a ELE e à SUA Torá, ou se seremos seduzidos pelos milagres daqueles que virão, falando em nome de D’us, para tentar anular os mandamentos (Deuteronômio 13:2-5). O Talmud (Bava Metzia 59b), em uma de suas mais dramáticas passagens, afirma que nem devemos dar ouvidos às vozes Celestiais, mas simplesmente seguir a Torá de acordo com o que prescreve a Lei Oral. Mesmo se uma voz dos Céus por ventura nos mandasse modificar nossa Torá e seus mandamentos, não a deveríamos obedecer.

D’us prometeu que SEU vínculo com o povo judeu – como é ratificado pela Torá e seus mandamentos – é eterno. Na Era Messiânica, A Verdade será revelada e o mundo inteiro irá reconhecer que a Torá é o verdadeiro ensinamento Divino à humanidade(*.

* Na verdade, o mundo inteiro já está abandonando suas religiões para seguir os mandamentos da Torá dados pelo PRÓPRIO D’us aos não-judeus. Isto é o que hoje se chama de Noaísmo (o Caminho Espiritual Noaítico, quer dizer, dos Noaítas ou Bnei Nôach – Filhos de Noá), que é a Fé Verdadeira, ou seja, a Fé Original – a Fé de Adám e Chavá (Adão e Eva) e de Nôach e Naamá.

Para saber mais sobre o verdadeiro ensinamento Divino à humanidade, veja

https://a-fe-original–noaismo.info/2015/09/08/as-sete-mistvot-que-unem-a-humanidade/   .)

 

Pois foi dito que em determinado momento futuro, todas as nações do mundo alegarão serem judias (por compartilharem da mesma Fé que Israel, A Fé em Hashém, pois então todos O conhecerão). E então, o Santo, Bendito seja, dirá que a única nação que detém o mistério em suas mãos é o povo judeu. E qual é este mistério? A nossa Mishná!

 

Próximo artigo:

OS TREZE PRINCÍPIOS DA FÉ JUDAICA

– Instituto Morashá de Cultura

 

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OS FUNDAMENTOS DO JUDAÍSMO

Noaísmo e A TORÁ E OS JUDEUS E O JUDAÍSMO


 

“Assim disse HaVaYaH dos Exércitos: ‘Naqueles dias, dez homens de diferentes línguas e de todas as nações segurarão a orla das vestes do judeu, dizendo: Iremos contigo, porque sabemos que D’us está contigo!'” – Zechariá (Zacarias) 8:23

 

1° A VERDADE HISTÓRICA DA REVELAÇÃO DIVINA NO SINAI

2° A AUTORIA DA TORÁ

3° CONHECIMENTO E FÉ

4° OS FUNDAMENTOS DO JUDAÍSMO

5° A TORÁ ORAL

6° OS TREZE PRINCÍPIOS DA FÉ JUDAICA


 

ATENÇÃO:

Na transliteração dos termos hebraicos o “ch” tem som de “RR”. Exemplos: “Yochanan”, “Chamishei Chumshei”, “Tanách”, etc.

Na transliteração dos termos hebraicos o “sh” tem som de “CH”. Exemplos: “Moshé”, “Chamishei Chumshei”, etc.

 

OS FUNDAMENTOS DO JUDAÍSMO

 

“Rabi Yochanan ensinou: A maioria das leis da Torá é fundamentada na transmissão oral e apenas a minoria nas Escrituras. Pois está escrito: ‘Por meio da boca (palavras transmitidas oralmente), EU (O ETERNO) fiz uma aliança contigo e com Israel’ (Êxodo 34:27)”. Se a aliança de D’us com Israel foi estabelecida por meio de leis que foram transmitidas oralmente, isso significa que estas constituem a maioria da Torá”. (Talmud Bavli, Gitin, 60b)

 

A alegação extraordinária de que D’us SE revelou aos seres humanos baseia-se em extraordinária evidência: o testemunho de uma geração inteira de judeus – cerca de 3 milhões de pessoas. A Torá registra o evento, mas o Povo Judeu também transmitiu oralmente, de uma geração a outra, a noção de que, sete semanas após o Êxodo do Egito, D’us abertamente SE revelou aos Filhos de Israel e proclamou os Dez Mandamentos, que são o núcleo das 613 mitzvót (leis) do Judaísmo. Ano após ano, na festa de Shavuót, lembramo-nos e celebramos esse evento, o mais importante na história da humanidade.

Milhões de judeus deixaram o Egito, o que significa  que houve milhões de testemunhas independentes para verificar ou negar o relato da Revelação Divina, especialmente durante as primeiras duas ou três gerações após o fato ter ocorrido. Para lançar dúvidas sobre o evento, bastaria que um grupo de judeus contasse a seus filhos que era uma inverdade o relato da Torá acerca de D’us se ter revelado a todos os judeus que deixaram o Egito. A Torá está ciente de que é muito difícil negar a veracidade histórica da Revelação Divina no Sinai e, corajosamente, oferece este desafio a todos os judeus: “Podes perguntar, pois, pelos dias passados que te precederam, desde o dia em que D’us criou o homem sobre a terra… Se houve jamais uma coisa grande semelhante a esta, ou se ouviu coisa igual a ela? Se um povo (inteiro) ouviu a voz de D’us falar no meio do fogo, como ouviste tu e ficaste vivo?” (Deuteronômio, 4:32–33)

A Revelação Divina no Sinai é o princípio fundamental do Judaísmo porque permitiu não apenas à geração conduzida por Moshé, mas também a todas as subsequentes gerações judias conhecerem, e não apenas acreditarem, que existe um D’us e que a Torá é a SUA Palavra e Vontade. Nós acreditamos em Moshé porque acreditamos em D’us – e não ao contrário. Essa distinção é da maior importância. O judaísmo não se originou  com o homem. Nenhum dos três patriarcas – Avrahám, Itzhák e Yaakóv – nem Moshé e seu irmão Aaron, fundaram a fé judaica. O judaísmo começa e termina com D’us.

A Revelação no Sinai é o pilar do judaísmo porque fundamenta Moshé como porta-voz e agente Divino: um canal confiável para a transmissão da chancela Divina no mundo – a Vontade e a Sabedoria Divinas – que é a Torá. Não há erro maior acerca do judaísmo do que a crença de que Moshé escreveu a Torá ou de que ele é o criador da Lei Judaica. Ele foi o maior dentre os profetas e líderes judeus: trouxe a Torá dos Céus à Terra e a ensinou a nosso povo – por esse motivo, é chamada de a Torá de Moshé –, mas não escreveu uma única letra da mesma. Moshé apenas transcreveu os Chamishei Chumshei Torá – os Cinco Livros da Torá. Foi o copista, não o autor. A Torá é a palavra de D’us, não a de qualquer profeta, nem mesmo do maior dos profetas de todos os tempos. A Revelação Divina no Sinai não apenas removeu todas as dúvidas sobre a Existência Divina e SEU interesse em SUA Criação. Também corroborou o fato de Moshé ser um profeta verdadeiro e fidedigno, e de a Torá, que ele trazia dos Céus, ser um livro de autoria Divina, não humana.

A Autoria Divina da Torá

Nós, judeus, acreditamos na Torá devido à Revelação Divina no Sinai, mas também acreditamos na Revelação por causa da Torá. O evento e seus relatos escritos e orais se entrelaçam. Por um lado, a Revelação Divina evitou que o Povo Judeu duvidasse do papel de Moshé como profeta e agente de D’us e de atribuir a ele a autoria da Torá. Por outro, a Torá corrobora a veracidade da revelação explícita de D’us ao Povo Judeu. Ao afirmar que a Revelação ocorreu perante milhões de judeus, a Torá se expôs ao desafio. Vimos no artigo Conhecimento e Fé que é praticamente impossível sustentar uma alegação de tal magnitude a menos que seja verdadeira; portanto, temos boas razões para crer que a Torá diz a verdade. Em outras palavras, a Revelação Divina dá à Torá credibilidade como uma obra de Divina autoria, ao passo que a Torá registra e comprova a veracidade histórica do evento mais extraordinário na história humana.

O processo de transmissão da Torá ao Povo Judeu se iniciou após a Revelação Divina e a proclamação dos Dez Mandamentos. Ao longo da jornada de 40 anos no Sinai, D’us transmitiu a Torá a Moshé, letra por letra. Moshé as anotou, como um secretário o faria. Quando lemos a Torá, portanto, estamos ouvindo a Fala Divina. Por vezes, ELE fala na primeira pessoa e por vezes na terceira – como quando fala através de Moshé, particularmente no quinto livro da Torá –, mas é sempre ELE QUEM fala.

Além da Torá Escrita, D’us transmitiu a Moshé a Torá Oral. Ambas eram igualmente necessárias. Se D’us não lhe tivesse dado a Torá Escrita – se a tivesse transmitido apenas oralmente –, provavelmente sua transmissão não seria tão límpida e imaculada; acabaríamos por enfrentar versões diferentes devido à má compreensão e consequente transmissão errônea de SEUS Mandamentos. Um documento escrito ajuda a evitar que isso ocorra. Ao mesmo tempo, um documento escrito, especialmente se contém conceitos e leis complexos, exige explicação oral, pois é comum entendermos e interpretarmos errado o que lemos. Em resumo, a Torá Escrita preserva a precisão da Torá Oral, ao passo que a Torá Oral explica e elucida a Torá Escrita, evitando que esta seja mal-entendida e mal interpretada.

A Autoridade Suprema da Torá

Moshé foi o maior profeta judeu de todos os tempos. D’us e Moshé se comunicavam entre si como dois amigos, íntimos. Por isso foi possível a D’us transmitir a Torá, letra por letra, a Moshé enquanto estava desperto e plenamente consciente. Outros profetas tiveram visões ou receberam mensagens Divinas durante seu sono ou em estado alterado de consciência. Tiveram, pois, que descrever com suas próprias palavras o que viram ou ouviram. Nenhum profeta judeu, nem mesmo os Patriarcas, possuíram a visão profética clara e transparente de Moshé.

D’us transmitiu informações precisas a ele. Os Cinco Livros da Torá não são apenas mensagens Divinas, mas a fala Divina. Em contraste, as palavras gravadas no livro dos Profetas (Nevi’im) são mensagens Divinas, mas não são palavras literais de D’us. Isso significa que apesar de todo o Tanách (Torá, Nevi’im, Ketuvim – Torá, Profetas e Escritos) ser sagrado, não há comparação entre seus primeiros cinco livros, a Torá, e os demais.  Essa distinção tem importância capital. O judaísmo se inicia e termina com os Chamishei Chumshei Torá.  É totalmente proibido extrair qualquer lei bíblica a partir dos Profetas ou dos Escritos. A única fonte de Lei Bíblica é a Torá. No judaísmo, os Profetas e os Escritos podem apenas prover um suporte e corroboração – uma Asmachtá – a uma lei da Torá. Nevi’im e Ketuvim são livros sagrados, mas não podem agregar, subtrair ou modificar qualquer verso ou lei dos Cinco Livros da Torá. Somente leis rabínicas, como os mandamentos de Purím (uma festividade rabínica) podem-se originar de Nevi’im e Ketuvim. Leis bíblicas, como as de Yóm Kipúr, Shabát, Cashrút, Tefilín, Mezuzá etc., são ditadas exclusivamente pela Torá. Se alguém quiser ousar e argumentar que um decreto rabínico é tão rigoroso quanto um bíblico, e que, portanto, não deveria haver distinção entre a Torá e o restante do Tanách, que esse alguém tente argumentar que não ouvir a Meguilat Esther em Purím é tão grave quanto não jejuar em Yóm Kipúr.

A regra essencial de que a Torá é o cerne do judaísmo é de grande relevância para o Povo Judeu. O fato de a Torá ser a primeira e a última palavra sobre o judaísmo tem profundas ramificações: significa que a fé judia não depende dos Nevi’im e dos Ketuvim. Nenhum profeta – nem Isaías, nem Jeremias nem Ezequiel – tinham autoridade de alterar a lei da Torá sob nenhum aspecto. Nenhum versículo do Livro dos Salmos pode ser usado para contradizer um versículo da Torá. Se algum profeta ousasse fazê-lo, seria considerado um falso profeta e acusado de pecado capital, ainda que suas profecias se realizassem, que realizasse milagres extraordinários e fosse carismático ou generoso. Os profetas não tinham autoridade alguma de modificar permanentemente a lei da Torá. Como os Cinco Livros da Torá foram escritos por D’us, nenhum ser humano, nem mesmo Moshé, poderia jamais revogar ou modificá-la de alguma forma.

Como vimos acima e no artigo Conhecimento e Fé, a base do judaísmo é a Revelação Divina no Monte Sinai. D’us, em SUA Plenitude, fez-SE ver a cada um dos judeus da geração que deixou o Egito e lhes transmitiu os Dez Mandamentos, que são o núcleo dos 613 mandamentos da Torá. Se não tivesse havido essa Revelação – se Moshé ou os profetas posteriores tivessem escrito a Torá – seria possível argumentar que eles teriam autoridade para modificá-la. No entanto, como foi repetidamente mencionado acima, Moshé não escreveu a Torá – ele a transcreveu e a ensinou. D’us escreveu a Torá – em sua íntegra. ELE é o único Legislador da Lei Judaica. Os Profetas e os Sábios são o poder judiciário, não o legislativo, do judaísmo. A própria Torá dá-lhes permissão de interpretar a Lei e mesmo de criar leis rabínicas que servem de proteção para que as leis bíblicas não sejam violadas. Contudo, nenhum ser humano, independentemente de seu grau de inteligência ou espiritualidade, pode criar, modificar ou revogar as leis da Torá. Além disso, qualquer lei rabínica precisa ter alguma base na lei bíblica.

Esse princípio fundamental do judaísmo é explicitamente declarado no quinto livro da Torá. Pois está escrito: “Se um profeta, ou um sonhador, se levantar no meio de ti e te der um sinal do céu ou um milagre da terra, e realizar-se o sinal ou o milagre de que te falou, e te disser: ‘Vamos atrás de outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los! ’ – não obedecerás às palavras daquele profeta ou daquele sonhador; porque HaVaYaH, vosso D’us, vos está testando para saber se amais HaVaYaH, vosso D’us, com todo vosso coração e com toda vossa alma. Após HaVaYaH, vosso D’us, andareis; a ELE temereis, SEUS Mandamentos guardareis e a SUA Voz ouvireis; a ELE servireis e a SUAS qualidades adotareis. E aquele profeta ou aquele sonhador será morto, porquanto pregou falsidade em Nome de HaVaYaH, vosso D’us, que vos tirou da terra do Egito e que vos redimiu da casa de escravos, para vos desviar do caminho que HaVaYaH, vosso D’us, vos ordenou para andar nele; e eliminarás o mal do meio de ti” (Deuteronômio, 13:2-6). 

Se alguém questionasse por que D’us daria poderes sobrenaturais a um ser humano que os usaria para se opor à SUA Vontade(*), a Torá prontamente dá a resposta: porque D’us está testando sua fé.

(* E este é o caso no que se refere a Yeshu (Jesus). Veja

https://a-fe-original–noaismo.info/2017/12/20/a-verdadeira-historia-de-jesus-e-do-cristianismo/  )

 

D’us nos fez saber por meio de SUA Torá que nenhum ser humano tem a autoridade de modificar ou revogar a Lei Judaica. Um homem pode realizar os maiores milagres – pode prever com precisão o futuro e fazer do dia noite e da noite, dia. Mas mesmo assim estamos proibidos de segui-lo se ele pronunciar uma única palavra contra a Torá.

Durante milhares de anos, indivíduos, organizações e instituições religiosas tentaram converter os judeus, alegando serem profetas ou fazedores de milagres ou argumentando que certas leis da Torá já não se aplicavam. Geralmente citavam passagens de Nevi’im ou Ketuvim para tentar corroborar suas crenças. Tais discussões, no que concerne ao judaísmo, são fúteis, pois a própria Torá nos alerta acerca de milagreiros e profetas que tentam nos desviar para outras fés. Além disso, como vimos acima, os versículos e passagens de Nevi’im e Ketuvim são irrelevantes para a Lei e prática judaicas. Sequer importa de que forma tais passagens são interpretadas, seja literalmente ou não.

Se, por exemplo, o profeta Isaías dissesse ao Povo Judeu que as leis de Cashrut já não mais se aplicavam, não apenas não lhe faríamos caso, como o levaríamos à Corte Suprema Judaica para ser julgado por ser um falso profeta. Na verdade, é interessante observar que esse profeta foi acusado por seu próprio neto, o rei Menashé, de ter feito declarações que contradiziam certos princípios da Torá. O profeta foi julgado, condenado à pena capital e brutalmente executado. Se as intenções do Rei em condenar seu avô eram maldosas e se as acusações eram infundadas não é relevante para nossa discussão. O que é digno de nota é que o maior profeta desde Moshé foi julgado e condenado à morte por ter feito declarações que alegadamente contradiziam certos princípios da Torá.

Não desejamos implicar que as palavras do profeta Isaías ou de qualquer genuíno profeta judeu contradiga a Torá, de alguma forma. De fato, o principal papel dos profetas era levar o Povo Judeu a fortalecer o seu cumprimento da Torá. Não é coincidência o fato de que o último dos profetas do Tanách, Malachi, conclua suas palavras proféticas com a seguinte mensagem Divina: “Recorda-te da Torá de Moshé, Meu servo” (Malachi 4:4).

Judeu algum deve tentar abraçar outra religião ou filiar-se a outro culto porque alguém realizou ou alegou ter realizado milagres e maravilhas. Ademais, todos os judeus devem estar cientes de que o judaísmo não pode ser ameaçado, de forma alguma, por interpretações de outros credos de passagens dos Nevi’im ou dos Ketuvim. As palavras de um ser humano  jamais poderá ou terá precedência sobre as palavras de D’us, que constituem os Cinco Livros da Torá.

A Torá Oral

D’us ditou a Torá Escrita a Moshé e o ensinou como deveria lê-la e elucidá-la – e como cumprir seus mandamentos. Esse “Guia Divino à Torá Escrita”, transmitido a Moshé e ensinado subsequentemente ao Povo Judeu durante sua longa jornada no deserto, é conhecido como a Torá Oral.

A Torá Escrita original transmitida por D’us a Moshé foi uma longa sequência de letras sem divisão entre as mesmas. O Talmud a descreve como “fogo negro escrito sobre fogo branco”. A Torá Oral explica como as letras da Escrita deviam ser divididas, pronunciadas e lidas. Sem ela, a Torá Escrita seria incompreensível – uma longa lista de letras hebraicas – compondo um código indecifrável.

Muitas das leis da Torá são muito complexas. Desde a Revelação no Sinai, inúmeros livros foram escritos sobre a mesma – mesmo a Torá Oral foi transcrita – mas, ainda assim, necessitamos de rabinos e professores para melhor entendê-la.

Mas não necessitamos de argumentos racionais para tentar provar a existência de uma Torá Oral. A Torá Escrita testemunha a existência de uma tradição oral, pois se fôssemos ler os Chamishei Chumshei Torá sem jamais ter praticado ou guardado os mandamentos judaicos, entenderíamos muito pouco dos mesmos. Por exemplo, quando lemos sobre a Matzá na Torá, sabemos a que se refere – apenas porque a quase totalidade dos judeus do mundo já o provaram ou viram. A Torá Escrita não nos diz como produzir a Matzá, como assegurar que não se torne Chamêtz, tampouco que devemos comê-la durante o Seder de Pêssach. A Tora Oral é a única fonte desse conhecimento.

A Torá Escrita transborda de leis e mandamentos, mas não explica como cumpri-los. O Brit Milá, a circuncisão, é um dos pilares da fé judaica – até o menos observante dos judeus insiste em circuncidar seus filhos homens – mas, ainda assim, a Torá Escrita sequer menciona explicitamente em que órgão se pratica a circuncisão nem como. Yóm Kipúr, dia mais sagrado do ano, é outro pilar da fé judaica. A Torá Escrita diz que nos devemos afligir no Dia do Perdão, mas não nos diz como. Não diz, em parte alguma, que devemos jejuar. Como saber que nos afligirmos em Yóm Kipúr significa jejuar? Afligir-nos pode significar autoflagelo. Mas não é. Outro pilar do judaísmo é o cumprimento do Shabát, mas a Torá Escrita não nos diz o que podemos e o que não podemos fazer nesse dia sagrado. Já a Torá Oral, esta nos fornece não apenas os detalhes, mas as explicações básicas de como interpretar e executar os mandamentos transmitidos pela Torá Escrita.

A referência mais explícita feita pela Torá Escrita acerca da Oral é encontrada em um versículo referente à Shechitá – o abate casher de animais. Em nenhum lugar da Torá Escrita ou outro livro do Tanach consta uma explicação sobre como essa prática deve ser realizada. Apenas está escrito: “… poderás degolar do teu gado e do teu rebanho que HaVaYaH te deu, como te ordenei…” (Deuteronômio, 12:21).

Através da História Judaica, muitas pessoas, judias ou não, têm tentado negar a existência e autenticidade da Torá Oral. Já que, como vimos acima, a Revelação Divina no Sinai não pôde ser negada porque foi um evento público que envolveu milhões de pessoas, quem quisesse enfraquecer a existência ou o cumprimento do judaísmo, tinha como objetivo a Lei Oral. Quando uma nação ou uma organização tentavam extirpar o judaísmo, escolhiam como alvo o Talmud, núcleo da Torá Oral.

É fácil entender por que aqueles que desejavam extirpar o judaísmo sem sujar suas mãos baniam o estudo do Talmud. Se nós, judeus, não podemos estudar a Torá Oral, não podemos entender e seguir a Torá Escrita, e, assim, não podemos cumprir os mandamentos.

Emét, a Verdade, como vimos no artigo já citado, é definida pela Torá como honestidade e consistência intelectual. Uma meia-verdade não é a Verdade.  Se alguém quer negar a existência e autenticidade da Torá Oral, terá que negá-la totalmente. Não poderá escolher aleatoriamente quais de suas leis atendem a seus propósitos. Quem a nega, não pode alegar que o principal mandamento de Yóm Kipúr é abster-se de comer e beber porque em nenhum lugar da Torá Escrita isso está ordenado. Não se pode negar a Torá Oral e tomar as quatro espécies em Sucót, porque em nenhum lugar da Torá Escrita suas identidades são reveladas. Finalmente, aquele que nega a Torá Oral não deveria sequer ler um Chumash ou um Sefer Torá, pois sem a Lei Oral não saberíamos como dividir as letras, o que dizer, então, de pronunciar suas palavras…

É importante observar, no entanto, que reconhecer a autenticidade e a autoridade da Torá Oral não significa que se alguém não segue todas as suas leis, não precisa se preocupar em seguir nenhuma delas. O que se espera de cada um dos judeus é honestidade e consistência intelectual: ou se aceita que a Torá Oral é tão Divina quanto a Escrita ou não. Não há outra opção. O que se espera do Povo Judeu, acima de tudo, é que preserve os fundamentos do judaísmo. O judaísmo autêntico é o reconhecimento de que D’us SE revelou no Monte Sinai e nos deu a Torá, de que a Torá é de Autoria Divina, e que a Torá Oral tem igual importância à Escrita.

Não surpreende que os judeus que não aceitaram ou não preservaram os princípios do judaísmo, acabaram por se assimilar. Ainda que acreditem em D’us, na Divina  Revelação no Sinai e na Divindade da Torá Escrita, isso não é suficiente. É a Torá Oral que distingue o judaísmo das outras religiões, especialmente daquelas que adotaram o Tanách. Na ausência da Torá Oral, não pode haver um judaísmo real.

A Eternidade da Torá

No Talmud, vemos diferenças de opinião em assuntos da  Lei Judaica, especialmente entre as Escolas de Hillel e Shammai. O Talmud declara que ambas as Escolas estão corretas em suas sentenças; ambas refletem as Palavras do D’us Vivo. Como poderiam ambas estar corretas? E se a Escola de Shammai também estava correta em seus veredictos, por que a Lei Judaica segue, em geral, os da Escola de Hillel?

É possível haver diferenças de opinião em questões da Lei da Torá porque assim como D’us possui tanto o Atributo de Misericórdia como o de Justiça, também a Torá, que é a SUA Vontade e Sabedoria, pode ser aplicada de forma leniente ou severa. A Escola de Hillel representava a Misericórdia Divina – e por essa razão suas sentenças tendiam a ser mais lenientes. A Escola de Shammai, por outro lado, refletia a Justiça Divina – por isso a maioria de seus veredictos eram mais severos que os da Escola de Hillel.

Em geral, a Lei Judaica sentencia segundo a Escola de Hillel porque vivemos em um mundo imperfeito, onde a Presença Divina é quase sempre oculta. Somos seres humanos frágeis e necessitamos misericórdia e leniência. Neste mundo de tantos desafios, é bastante difícil seguir a lei da Torá mesmo segundo os veredictos da Escola de Hillel. Contudo, quando Mashíach (o verdadeiro Messias) vier e o mundo for aperfeiçoado, seguiremos as sentenças da Escola de Shammai – pois seremos, então, capazes de seguir a Torá de acordo a suas interpretações mais rígidas.

Isso significa que contrariamente ao que muitos pensam, a Torá não será revogada quando o Mashíach vier. De fato, como explicamos acima, nós a respeitaremos de uma maneira ainda mais rígida e completa. O conceito de uma “nova Torá”, tirado de um versículo de Isaías, não significa que a Torá do Sinai foi ou será revogada na Era Messiânica. Pois, como vimos acima, nenhum profeta, nem mesmo Isaías, pôde mudar sequer um pingo na Torá. Ademais, a Torá Oral, que é uma parte indispensável para a compreensão da Torá Escrita, explica que na Era Messiânica iremos observar a Torá de acordo com Beit Shammai, a Escola de Shammai. Portanto, o conceito de uma “nova Torá” significa uma compreensão mais profunda dos ensinamentos da Torá e o cumprimento mais rígido de seus mandamentos.

A Torá não pode mudar porque é a Vontade e Sabedoria de uma EXISTÊNCIA Infinita e Perfeita, que vive acima e além do tempo e de qualquer outra limitação. Em determinados períodos no tempo, algumas das leis da Torá podem não se aplicar. Por exemplo, não podemos cumprir muitos de seus mandamentos na ausência do Templo Sagrado. Contudo, nenhum dos mandamentos foi ou jamais será permanentemente revogado.

A Cabalá ensina que a Torá é o projeto do mundo.  Como ensina o Zohar, “D’us olhou na Torá e criou o mundo. O homem olha na Torá e o sustenta”. O Maharal de Praga, um dos maiores Sábios da história judaica, que ficou famoso por criar o Golem, perguntou, certa vez: “Por que o mundo está-se perdendo?”. E ele respondeu: “Porque a Torá foi abandonada”. E o que significa abandonar a Torá? Significa não reconhecer que é Divina e subestimá-la de alguma forma. O Talmud afirma enfaticamente que questionar a origem Divina de uma letra que seja ou de uma interpretação tradicionalmente aceita da Torá equivale a negar toda a Torá (Sanhedrin 99a). O Talmud vai mais adiante. Ensina que aquele que nega que a Torá Oral foi outorgada por D’us a Moshé é alguém que despreza a palavra de D’us (ibid).

Como a Torá é o plano-mestre de D’us para o mundo, aquele que se empenha em fortalecê-la, fortalece o mundo. Ele ajuda a levar bênçãos, proteção, paz e prosperidade a toda a humanidade. Quem, por outro lado, enfraquece a Torá, faz exatamente o oposto.

A festa de Shavuót, que ocorre sete semanas após Pêssach, é a época mais propícia do ano para o Povo Judeu fortalecer a Torá através da renovação de seu compromisso de estudá-la e cumprir seus mandamentos. Fortalecemos a Torá e trazemos bênçãos Divinas e plenitude ao mundo preservando os fundamentos do judaísmo: o reconhecimento de que D’us SE revelou ao homem, de que a Torá é Divina e, portanto, eterna e imutável, e de que apoia-se em dois pilares: a Torá Escrita e a Torá Oral. São esses os princípios que definem o judaísmo autêntico.

 

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O QUE É A TORÁ ORAL

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CONHECIMENTO E FÉ

Noaísmo e A TORÁ E OS JUDEUS E O JUDAÍSMO


 

“Assim disse HaVaYaH dos Exércitos: ‘Naqueles dias, dez homens de diferentes línguas e de todas as nações segurarão a orla das vestes do judeu, dizendo: Iremos contigo, porque sabemos que D’us está contigo!’” – Zechariá (Zacarias) 8:23

 

1° A VERDADE HISTÓRICA DA REVELAÇÃO DIVINA NO SINAI

2° A AUTORIA DA TORÁ

3° CONHECIMENTO E FÉ

4° OS FUNDAMENTOS DO JUDAÍSMO

5° A TORÁ ORAL

6° OS TREZE PRINCÍPIOS DA FÉ JUDAICA


 

ATENÇÃO:

O “ch” nos termos hebraicos tem som de “RR”: Chassídico, Chassidim, Yochai, Chukim, Kórach.

 

CONHECIMENTO E FÉ

“Para que não esqueças as coisas que os teus olhos viram e para que não saiam do teu coração todos os dias da tua vida; e as farás conhecer aos teus filhos e aos filhos de teus filhos – no dia em que estiveste diante de HaVaYaH, teu D’us, em Horeb, quando HaVaYaH me disse: ‘Junta-me o povo e o farei ouvir as MINHAS palavras, para aprender a temer-ME todos os dias em que viver na terra, e para que as ensinem a seus filhos'”. (Deuteronômio 4:9-10)

 

A história que leremos, a seguir, versa sobre  Rabi Levi-Yitzhak de Berditchev, um dos maiores mestres do Movimento Chassídico. Logo após seu casamento, ele pediu permissão ao sogro para viajar a Mezeritch, onde queria estudar com o líder dos Chassidim, o Rabi Dov Ber, conhecido como o Grande Maguid, o Grande Pregador. O sogro negou-lhe a permissão, mas o Rabi Levi-Yitzhak insistiu e perturbou-o até que ele cedeu, dando-lhe permissão de passar seis meses estudando em Mezeritch.

Rabi Levi-Yitzhak viaja, então, para estudar com o Grande Maguid. Ao voltar para casa, decorridos os seis meses, o sogro o recebe com um sorriso zombador. “Diga-me, Levi, o que foi que aprendeu em Mezeritch?  O que aprendeu com aquelas pessoas estranhas – os Chassidim – que não pudesse ter aprendido aqui?”, perguntou. Rabi Levi-Yitzhak volta-se para o sogro  e diz: “Agora sei que D’us existe”. Seu interlocutor fica chocado com a resposta. Agora ele sabe que D’us existe? Teria sua filha se casado com um ateu, um agnóstico?

O sogro chama, a seguir, uma mocinha que trabalhava  em sua casa. Aponta para o céu, a grama, as árvores  e pergunta a ela: “Diga-me, como surgiu tudo isso?”.  A garota responde, sem hesitar: “D’us o criou, claro!”.  “Você está dizendo que D’us existe?”, perguntou. “Claro que D’us existe!”, ela disse, olhando-o como se ele tivesse perdido a razão.

Voltando-se para Rabi Levi-Yitzhak, o sogro diz: “Você está vendo, Levi? Ela não estudou em Mezeritch. Na verdade, ela nunca frequentou uma Yeshivá aqui na cidade, e ela sabe que D’us existe”. Rabi Levi Yitzhak volta-se para o sogro e, dessa vez, é ele quem sorri ao falar: “Você não entende… Ela diz que D’us existe. Eu sei que D’us existe”…

A Verdade, segundo o Judaísmo

Esse relato representa a própria definição de religião de acordo com o judaísmo. A religião não consiste em dizer ou acreditar em certos fatos – mas em saber certos fatos. Segundo o judaísmo, a religião(*) é a busca da Verdade. Religião e Verdade são sinônimos. D’us e Verdade são sinônimos. A palavra hebraica para Verdade, Emét, é um dos nomes de D’us, e, como ensina o Talmud, é a própria chancela Divina. A busca por D’us, portanto,  é a busca pela Verdade.

(* Quando o judaísmo usa a palavra “religião”, é com o sentido de espiritualidade, de natureza espiritual.)

 

Segundo o Talmud, a grafia em si da palavra Emét define o que realmente constitui a Verdade. Essa palavra hebraica é formada por três letras: Alef, Mem e Taf. Alef é a primeira letra do alfabeto hebraico, Mem é a letra do meio e Taf é a última. A grafia de Emét nos ensina que a Verdade precisa ser consistente: algo só é verdadeiro quando é consistentemente verdadeiro; quando seu início, seu meio e seu fim são verdadeiros. Algo que é uma meia-verdade, incoerente ou inconsistente, não é Verdade.

Muitos julgam que a religião e a Verdade são nitidamente opostas. Acreditam que a religião e o conhecimento são, em geral, contrários – que a religião exige que substituamos o conhecimento pela fé. O judaísmo rejeita, categoricamente, essa visão. Proclama que D’us e SUA Torá – que é SUA Vontade e Sabedoria – são a Verdade Suprema, e que se encontrarmos uma contradição entre a Torá e a Ciência, isso se deve ao fato de termos uma compreensão errônea de uma das duas – ou de ambas.

Como veremos a seguir, a fé não significa o abandono da razão ou do conhecimento. O Talmud, espinha dorsal da Lei e tradição Judaicas, é quase inteiramente baseado no conhecimento e lógica. Rabi Shimon Bar Yochai, o grande místico e autor do Zohar, obra fundamental da Cabalá, que também foi um dos maiores Sábios do Talmud, defende a ideia de que há um motivo racional para as leis da Torá. O conceito de dogma, de fé cega, de aceitação do absurdo e do ilógico, é estranho ao judaísmo. É verdade que como D’us e SUA Sabedoria são Infinitos, nós, criaturas finitas, jamais O entenderemos ou a SUA Torá por completo. Isso, no entanto, não significa que não entendamos nada acerca d’ELE ou de SUA Sabedoria. Fazendo uma analogia: há vários problemas na Matemática que não foram solucionados. Isso não significa que nada saibamos sobre essa ciência. Há uma diferença abismal entre não saber tudo e não saber nada.

Ser humano algum, nem mesmo Moshé Rabênu, pode entender plenamente D’us e SUA Vontade. Mas isso não significa que a Torá exige aceitação cega. Mesmo suas leis conhecidas como Chukim, popularmente definidas como as “leis não racionais”, não são dogmas. As Chukim não são ilógicas: simplesmente requerem um grande cabedal de conhecimento e sabedoria para serem compreendidas. Por exemplo, algumas pessoas creem que a proibição de comer carne e leite juntos seja ilógica – algo que pode ser aceito apenas através da fé. Mas para alguém que estudou o judaísmo em profundidade e compreende o funcionamento das Sefirót – e o que a carne e o leite representam – as razões para a proibição de comê-los juntos ficam muito claras. O mesmo se aplica a todos os mandamentos da Torá. Nada é absurdo ou ilógico, mas algumas leis requerem muita sabedoria e conhecimento para serem compreendidas.

Qual seria, então, o papel da fé no judaísmo? Sem dúvida, um papel central, mas não da maneira  como o crê a maioria das pessoas. A palavra hebraica para fé, “Emuná” não significa fé cega – a suspensão da razão e da lógica. Essa palavra origina-se da raiz “Aman”, que significa basear-se seguramente ou confiar em algo. Segundo a Torá, Emuná significa acreditar naquilo que é de confiança. O motivo para a fé ter um papel central no judaísmo é por desempenhar um papel fundamental na vida. Quer o saibamos ou não, todos os seres humanos – até os mais céticos – utilizam a Emuná. Nós a empregamos todos os dias, em cada momento de nossa vida, consciente ou inconscientemente, ativa ou passivamente.

Exercemos uma medida de fé mesmo quando estamos em casa, sem fazer nada: temos fé que o teto não vá ruir e que o edifício não vá desmoronar-se, apesar de sabermos que coisas assim acontecem. Exercemos a fé quando viajamos de avião: acreditamos que a aeronave esteja funcionando adequadamente e que o piloto saiba o que está fazendo, apesar de não podermos garantir nenhuma das duas situações. Também empregamos a fé quando lemos o jornal e acreditamos no que lemos, mesmo sabendo que os jornais são, geralmente, subjetivos e, ocasionalmente, contêm informações erradas. Exercemos a fé quando acreditamos no que nossos professores e livros de História nos ensinam.

O que sabemos é, em maior ou menor extensão, baseado em Emuná, porque não podemos ter certeza de nada. Sequer podemos ter certeza de que nosso mundo não é um mundo da fantasia, uma ilusão, como o creem os místicos orientais. Diante da inexistência da prova absoluta, temos que fazer uso da Emuná; temos que presumir muitas coisas e tentar buscar a verdade de forma honesta, o que significa ser intelectualmente honesto e consistente – sem empregar padrões morais duplos – dois pesos e duas medidas, ou utilizar argumentos emocionais para tentar silenciar os racionais.

Conhecimento,  Fé e Falácias

Para discutir adequadamente o papel que o conhecimento e a fé desempenham no judaísmo, é necessário primeiro reconsiderar nossas definições de ambos os conceitos. A quase totalidade de nosso conhecimento se baseia em dois pontos: a probabilidade e a fé de que fatos históricos foram corroborados por fontes independentes antes de serem aceitos como verdadeiros. Quase todo o conhecimento científico se baseia em probabilidades – há poucos fenômenos, se é que existe algum, que sejam infalíveis.

Consideremos o seguinte cenário: um cassino é acusado de adulterar a roleta, mas se nega veementemente a admiti-lo.  A roleta é dividida em 37 segmentos, numerados de 0 a 36. Suponhamos que tenha girado 1.000 vezes e que sempre pare no mesmo número. Pode-se concluir daí que houve adulteração? Provavelmente – mas não há certeza. Estatisticamente, não é impossível que a roleta pare no mesmo número 1.000 vezes seguidas. Na verdade, pode-se fazer girar a roleta de agora até o infinito, e a mesma poderia sempre parar no mesmo número sem que estivesse adulterada. As chances de tal fato acontecer são infinitesimais, mas existem. Se afirmássemos saber que o cassino havia adulterado a roleta e o considerássemos responsável pela fraude, estaríamos empregando uma medida de fé – ou seja, apesar de não estarmos absolutamente seguros do que dizíamos, acreditávamos que a roleta estivesse adulterada em virtude de ser muito pequena a probabilidade de não o estar.

No entanto, há uma enorme diferença entre algo improvável e algo impossível. Uma chance em um trilhão não é a mesma coisa que chance zero. No caso da roleta, não há chance alguma de que pare no número 40, simplesmente porque este não é um de seus números.  Mas sempre há uma chance, por menor que seja, de que alguém possa fazê-la girar indefinidamente e ela sempre pare no mesmo número.

Como no exemplo acima, quase todo o conhecimento científico é calcado em probabilidades – em tentativa e erro. Qualquer cientista honesto e competente pode confirmar que as Ciências se baseiam em teorias – não em leis absolutas.   A certeza absoluta não existe  – nem mesmo no reino das  “ciências exatas”. Exemplificando:  A Ciência pode mostrar-nos, na teoria e na prática, a razão pela qual alguém que ande descalço sobre brasas de carvão incandescente queima os pés. Contudo, há pessoas que andam sobre brasas – o fenômeno religioso praticado em várias regiões do planeta, chamado de “Andar sobre fogo” – sem queimar nem ferir os pés.

Quando se trata de conhecimento acerca de eventos, como sabemos o que é ou não verdade? Como sabemos que Hiroshima sofreu um ataque nuclear durante a 2ª Guerra Mundial e que o Rio de Janeiro nunca foi atacado? Muitos de nós não tínhamos nascido nessa época; como saber, então, o que realmente aconteceu? Baseamo-nos no testemunho de terceiros. Quanto maior for a corroboração – quanto mais testemunhas independentes houver, reduzindo a possibilidade de conluio – mais disposição teremos para considerar o fato como verdadeiro. Nenhum de nós pode voltar no tempo ou estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Além do mais, não dispomos dos recursos nem do tempo para corroborar pessoalmente tudo o que nos conta a imprensa escrita ou falada. Usamos de boa-fé ao acreditar que as notícias transmitem a verdade porque há fontes independentes – jornalistas que trabalham em mídias concorrentes – que se beneficiariam se pudessem desacreditar a concorrência. Mesmo se vivêssemos em um regime totalitário, com controle da mídia, os oponentes internos ou externos do governo deixariam vazar a verdade. Um governo pode mentir se assim o quiser, e pode controlar a imprensa e silenciar a oposição, mas não pode forçar seu povo a acreditar nas mentiras, nem, muito menos, a transmiti-las a seus filhos. O excelente romance político de George Orwell, 1984, descreve o quão difícil é, mesmo para a mais brutal das sociedades totalitárias, fazer lavagem cerebral em todo um povo. Como o disse, brilhantemente, Abraham Lincoln: “Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todas por todo o tempo”.

Um dia, a verdade vem à tona, especialmente se o assunto diz respeito a muitas pessoas. Fica relativamente fácil corroborar sua veracidade.

O que hoje é notícia, amanhã é história. Acreditamos que eventos históricos importantes, que envolveram um grande número de pessoas, realmente ocorreram porque há muitas testemunhas independentes que poderiam confirmar sua veracidade e deixar vazar a verdade, no caso de uma deturpação da realidade.

Quando alegamos saber algo, o que estamos realmente dizendo é que a probabilidade daquilo ser verdade é indubitável, está além de qualquer dúvida. Ser indubitável é o padrão de evidência exigido para validar uma condenação criminosa. Se alguém é acusado de ter cometido um crime por uma única testemunha, ele pode alegar que a testemunha está mentindo. Se houver mais testemunhas, ele pode alegar que estão conspirando contra ele. Quando são milhares de testemunhas, a probabilidade de estarem enganadas no que viram ou estarem conspirando, é muito pequena – está praticamente além de qualquer dúvida.

Mentiras e tramas conspiratórias que envolvam milhões ou mesmo milhares de pessoas têm vida curta porque é enorme a possibilidade de vazamentos. Pois, como convencer milhares de pessoas a contar uma mesma história deturpada? Como convencer todas essas pessoas a nunca contar a verdade a ninguém – a nenhum amigo, nem a seus filhos ou netos? Os recentes escândalos envolvendo Edward Snowden e a Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA) evidenciam que basta um indivíduo vazar os segredos que envolvem um grande número de pessoas. Nas palavras do próprio Snowden: “… informar ao público o que é feito em seu nome e o que é feito contra eles”.

Quanto maior a mentira, a deturpação ou a conspiração, e quanto mais pessoas estiverem envolvidas, mais fácil será refutá-la.

Revelação Pública:  a Base do Judaísmo

Muitos acreditam, erroneamente, que a fé judaica se baseia no Êxodo do Egito – nas pragas e na divisão do Mar dos Juncos. Eles talvez argumentem que se esses fenômenos pudessem ser racionalmente explicados, a veracidade do judaísmo seria questionada. Trata-se de uma concepção muito errada – não apenas porque a fé judaica ensina que D’us opera através das leis da natureza que ELE criou – mas porque, no que toca ao judaísmo, milagres e maravilhas pouco provam. As pragas e a divisão do mar serviram a um propósito prático – libertar o Povo Judeu do Egito – mas não têm praticamente influência alguma em nossas crenças.

A Torá nos ensina que a fé judaica não é calcada em milagres. Quando D’us aparece, pela primeira vez, a Moshé, ordenando-lhe que volte ao Egito e informe ao Povo Judeu que ELE os libertará da escravidão, ELE lhe diz: “Porque estarei contigo, e isto será para ti o sinal de que EU te enviei; depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a D’us sobre este monte” (Êxodo, 3-12). D’us informou a Moshé que o Povo Judeu acreditaria nele em virtude da revelação que ocorreria “na montanha”, o Monte Sinai, e não por causa dos milagres e maravilhas que a antecederiam.

O Rav Maimônides ensina que a verdadeira fé não pode basear-se em milagres porque sempre resta uma dúvida persistente de que tivessem sido inventados ou realizados por outro meio que não a intervenção Divina. Ele ainda explica que isso foi a base do temor de Moshé de que os judeus não acreditassem nele mesmo se ele realizasse milagres para provar que D’us o havia indicado como SEU agente. “E eles não me crerão”, Moshé responde a D’us, “nem ouvirão a minha voz, pois dirão, ‘Não apareceu a você HaVaYaH’” (Êxodo, 4:1). Moshé percebeu que nem mesmo a maior das maravilhas poderia induzir à crença perfeita. Para refutar esse medo, D’us lhe assegurou que a Nação Judaica vivenciaria uma Revelação Divina no Monte Sinai, removendo-lhes qualquer dúvida. A fé de Israel em Moshé e em sua profecia não se basearia, então, em fatos sobrenaturais, mas na experiência coletiva de milhões de pessoas no Monte Sinai, onde lhes ficaria indiscutivelmente claro que D’us falava com eles (Hil. Yesodei Ha’Torá, 8:2). Os milagres, independentemente de quão numerosos ou assombrosos, não podem ser fonte de crença para ninguém – não apenas porque seja controvertida a própria definição do que é um milagre – mas porque não apenas o verdadeiro profeta de D’us tem a capacidade de realizar atos sobrenaturais. Os feiticeiros do Faraó, que eram idólatras, conseguiram transformar cajados em serpentes e as águas do Egito em sangue. O profeta Bilaam, que era o mais malvado e depravado dos seres humanos, era um profeta tão poderoso quanto Moshé.  A capacidade de prever o futuro ou de realizar milagres – milagres verdadeiros, não ilusões ópticas – prova apenas uma coisa: que quem os realiza possui um talento muito raro.

De fato, povos de quase todas as religiões realizaram milagres. Se os milagreiros comprovassem a validade de sua religião, teríamos que acreditar em quase todos elas, o que seria um absurdo teológico e lógico, pois a maioria delas é mutuamente exclusiva.

Acreditamos no judaísmo não por causa de Moshé, nem das pragas ou da divisão do mar, mas porque D’us,  ELE PRÓPRIO, SE revelou perante 600.000 judeus e suas famílias, no Monte Sinai. A veracidade de um evento público testemunhado por milhões de pessoas é muito difícil de ser refutada. O judaísmo baseia-se em um evento público que envolveu uma miríade de pessoas, e não no carisma de um líder, poderes da fala, ou habilidades sobrenaturais. O judaísmo não se baseia no que seu maior líder vivenciou, mas no que toda a primeira geração de judeus vivenciou. Nós acreditamos no judaísmo não por acreditar em Moshé, mas porque acreditamos no testemunho de milhões de judeus.

O grande astrônomo judeu americano, Carl Sagan, disse certa vez que, “Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. D’us optou por SE revelar ao Povo Judeu inteiro porque o testemunho de milhões de pessoas constitui evidência extraordinária que corrobora uma alegação extraordinária. A palavra de um homem – independentemente de quão sagrado ou poderoso seja – não constitui evidência extraordinária. Tampouco o é o testemunho de um pequeno grupo de pessoas. Ainda que sejam verdadeiras, sempre é possível que estejam enganadas acerca do que viram. No entanto, é muito difícil que três milhões de pessoas fabriquem uma história ou que estejam erradas no que viram, ouviram e vivenciaram.

À luz do que vimos acima, podemos entender por que a Torá afirma categoricamente que somente após a Revelação no Sinai o Povo Judeu acreditaria em Moshé para todo o sempre. Antes do Sinai, alguém o poderia ter desmistificado como um feiticeiro que derrotara os feiticeiros do Faraó. Poderia argumentar que as pragas no Egito e mesmo a divisão do mar foram coincidências: aberrações estatísticas, que, como vimos acima, não constituem provas absolutas. Mas quando milhões de pessoas viram-se diante de D’us, não houve mais lugar para especulação ou para análise de probabilidades estatísticas. Mesmo os inimigos e adversários de Moshé, inclusive seu primo Kôrach, que tentou organizar um golpe de estado, não puderam negar nem questionar a veracidade da Revelação Divina no Sinai.

Fosse a Torá um livro de mitos ou uma combinação de realidade e ficção, poderíamos talvez argumentar que a Revelação Divina no Sinai fosse um de seus relatos ficcionais. Mas os judeus sempre insistiram que os eventos relatados nos Cinco Livros da Torá devem ser levados  ao pé da letra. Portanto, há apenas duas possibilidades reais do que possa ter acontecido no Sinai: ou foi uma Revelação Divina, como relata  a Torá, ou uma conspiração de massa, envolvendo milhões de pessoas que fabricaram uma história, ou, no mínimo, concordaram em levar avante essa mentira, evitando, de alguma forma, que a verdade viesse à tona. Nenhuma dessas pessoas nem nenhum de seus filhos escreveu seu relato pessoal, contradizendo a Torá. Até mesmo os inimigos de Moshé, mesmo aqueles que adoraram o bezerro de ouro, nunca tiveram a audácia de negar a veracidade da Revelação Divina no Sinai.

É muito difícil de crer que milhões de judeus tenham inventado a história da Revelação ou concordado em respeitá-la, sabendo que era uma falácia. É ainda mais difícil de acreditar que, fosse uma invenção, ninguém a tivesse desmascarado e revelado a verdade. Contudo, de fato não há prova absoluta que corrobore esta extraordinária alegação – assim como não há prova absoluta de nada. Pode-se sempre conjecturar que talvez o Povo Judeu tenha imaginado ou sonhado sobre a Revelação. Talvez tenham inventado a história e convencido outros milhões de pessoas, judeus ou não, sobre sua veracidade. Tudo é possível: às vezes, mesmo as mais improváveis teorias conspiratórias são comprovadas. É aí que entra em cena a Emuná – a fé verdadeira: quando optamos por acreditar porque há evidência suficiente para fazê-lo, ainda que não haja certeza absoluta.

A Emuná que o judaísmo espera dos judeus é a mesma exigida pelos outros campos do conhecimento. Como o pilar do judaísmo foi um evento público que envolveu milhões de pessoas, trata-se de verdade histórica, não de fé cega. Isso significa que acreditar na Revelação Divina no Sinai e, portanto, na verdade do judaísmo, não é um ato de credulidade, mas sim de Emuná.   A verdadeira fé, do tipo que o judaísmo espera de cada um dos judeus, é uma ponte pequena que  liga a probabilidade à certeza. Precisamos da mesma porque, na verdade, não podemos ter 100% de certeza sobre nada.

Como na história sobre o Rabi Levi-Yitzhak de Berditchev, há uma diferença abismal entre dizer que  D’us existe e saber que ELE existe(*).  O judaísmo não exige fé cega, mas não é justo exigir mais corroboração da Torá do que da História ou das Ciências.

(* Certamente, todas as religiões do mundo – todas invenções humanas – só podem mesmo é dizer que D’us existe, e não sabe-lo (por conta própria).)

 

O judaísmo é a busca da Verdade, e por isso se iniciou da forma em que tudo ocorreu: para que nossa conexão com D’us e SUA Torá não fossem produto da fé cega. D’us poderia ter-SE revelado apenas a Moshé Rabênu e aos judeus que mais o merecessem, mas ELE optou por revelar-SE a todos, desde o mais simples deles. Era a única maneira de assegurar que nossa fé em D’us e em SUA Torá não fossem calcadas nos ensinamentos de um indivíduo ou de um grupo de pessoas (que todos sabem é o caso do cristianismo e do islamismo, e de toda a religião). Consequentemente, nós, judeus, não acreditamos em D’us por acreditar em Moshé, mas sim, acreditamos em Moshé por acreditar em D’us.

A festa de Shavuót celebra a Revelação Divina no Sinai e a transmissão dos Dez Mandamentos, que são o núcleo dos 613 mandamentos da Torá. Shavuót é o momento propício do ano para que todos os judeus fortaleçam sua conexão com D’us e SUA Torá, não por fé cega ou convenção social, mas porque há evidências avassaladoras que atestam a veracidade do evento mais extraordinário da História, ocorrido 50 dias após a libertação de nosso povo do Egito.

 

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OS FUNDAMENTOS DO JUDAÍSMO

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